*Melina Cattoni
Às vésperas do segundo turno das eleições de 2026, marcado para 25 de outubro, as discussões sobre o futuro do país também passam pelas condições em que milhões de brasileiros vivem. Entre propostas de governo, compromissos de campanha e prioridades para os próximos quatro anos, a moradia ocupa um lugar que vai além da construção de casas. Para quem vive nas periferias, falar sobre habitação também significa discutir saneamento, alimentação, segurança e a possibilidade de participar das decisões que afetam o próprio território.
Na ocupação Márcio Wanderley, no Recife (PE), Maria Jaciara Ribeiro da Silva, conhecida como Jacy Must, acompanha essas necessidades de perto. A liderança comunitária gostaria que as discussões eleitorais dessem mais atenção aos direitos da população de baixa renda e às barreiras que dificultam o acesso à moradia digna. Se pudesse caminhar pela comunidade ao lado de alguém que disputa as eleições, começaria pelo saneamento básico. Depois, mostraria as condições em que as famílias vivem e procuraria explicar o que levou cada uma delas até aquele lugar.
O percurso imaginado por Jacy ajuda a compreender o que costuma ficar de fora da discussão. Uma ocupação pode ser reconhecida pela precariedade das construções ou pela ausência de infraestrutura, mas essas características não explicam, sozinhas, as circunstâncias que levam famílias a ocupar terrenos. Para compreender essa realidade, também é preciso conhecer as dificuldades que enfrentaram antes de chegar ali e as condições encontradas para permanecer.
A trajetória de Jacy ajuda a dimensionar esse cenário. Em 2024, após um acordo que resultou na saída das famílias da ocupação Chico Lessa, onde também era liderança comunitária, ela também precisou recomeçar em outro território. Parte dos moradores seguiu para Márcio Wanderley, levando materiais que pudessem ser reaproveitados na construção de novas casas. A mudança não encerrou a busca por estabilidade, nem as dificuldades relacionadas ao acesso a serviços essenciais.
A experiência de Jacy também evidencia os limites de respostas habitacionais que não consideram as diferentes condições de vida das famílias. Essa preocupação está presente no Policy Brief Moradia e Clima: Diretrizes para a Agenda Federal 2027–2030, lançado em setembro de 2026 pela TETO Brasil e pelo Fundo FICA. O documento reúne propostas para enfrentar a precariedade habitacional e aproximar as políticas de moradia das estratégias de adaptação climática, além de estabelecer compromissos voltados aos próximos mandatos.
Moradia digna, infraestrutura e acesso a direitos
Há dificuldades que podem ser percebidas em uma caminhada pelo território. Outras exigem convivência, escuta e confiança. Jacy chama atenção para esse aspecto menos visível ao mencionar as situações de vulnerabilidade enfrentadas por mulheres que criam os filhos sozinhas, pessoas idosas e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+. Na história de Jacy, as demandas relacionadas à moradia sempre estiveram próximas de outras necessidades.
Em Chico Lessa, onde dava aulas para crianças no galpão comunitário, percebeu que algumas chegavam sem ter feito a primeira refeição do dia. Começou, então, a buscar doações de alimentos nos mercados da região. A aproximação com as famílias abriu espaço para outras demandas, como a busca por vagas nas escolas, o acesso a serviços de saúde e o apoio a mulheres em situações de violência.
Com o tempo, esse contato também fortaleceu os vínculos com os moradores e ampliou sua atuação como liderança. Para Jacy, o respeito entre as pessoas, a união, o apoio às famílias em situação de vulnerabilidade e a transparência das lideranças são tão importantes para a convivência quanto a organização coletiva diante das dificuldades.
Em Márcio Wanderley, moradia e alimentação estão entre os assuntos mais presentes nas conversas com as famílias. O desejo de ter um bom lugar para viver vem acompanhado da vontade de encontrar um espaço onde seja possível descansar a mente. A expressão, escolhida pela própria liderança, aproxima a discussão habitacional de uma dimensão que nem sempre recebe a mesma atenção: a relação entre moradia e saúde mental.
A necessidade de considerar realidades diferentes também orienta as quatro frentes de atuação reunidas no policy brief. Construído a partir do I Fórum Brasileiro de Moradia e Clima, realizado em junho, em Brasília (DF), o documento apresenta propostas para diferentes situações de precariedade habitacional.
Entre elas estão a habitação emergencial, que propõe respostas estruturadas para famílias atingidas por desastres, e a locação social, voltada a ampliar as alternativas de acesso à moradia para quem enfrenta dificuldades com os custos do aluguel. O Moradia Primeiro considera o acesso à habitação como ponto de partida para a autonomia de pessoas em situação de rua, enquanto as melhorias habitacionais buscam enfrentar problemas nas casas existentes, incluindo aqueles que ampliam a exposição a eventos climáticos.
A relação entre moradia e clima, central no documento, chama atenção para as condições em que parte da população enfrenta chuvas intensas, calor extremo e outros eventos. Nessas situações, a precariedade das construções pode ampliar riscos que já fazem parte do cotidiano de famílias em situação de vulnerabilidade.
Para comunidades como Márcio Wanderley, onde as dificuldades de infraestrutura convivem com outras necessidades, essas discussões encontram questões concretas. O saneamento apontado por Jacy, a busca por serviços públicos e as condições de segurança mostram que a possibilidade de permanecer em um local também depende daquilo que existe no entorno. Resta saber, porém, quanto dessas necessidades encontra espaço nas decisões que definem as prioridades das cidades.
O que permanece depois das eleições?
Em Márcio Wanderley, Jacy reconhece que as demandas dos moradores nem sempre chegam a quem ocupa os espaços de decisão. Dentro da comunidade, as famílias conseguem participar das conversas e escolhas coletivas, embora o diálogo nem sempre seja fácil. Fazer com que essas necessidades sejam consideradas fora do território, entretanto, envolve outros obstáculos.
A atuação das lideranças comunitárias procura aproximar essas realidades. São elas que frequentemente acompanham os problemas, escutam as famílias e buscam caminhos para que suas demandas sejam reconhecidas. Mas a participação dos moradores nas políticas públicas também depende de espaços em que possam apresentar prioridades e acompanhar decisões que terão consequências sobre suas vidas.
Essa preocupação esteve presente na elaboração do policy brief da TETO Brasil e do Fundo FICA. O documento nasceu de discussões que reuniram representantes do poder público, pesquisadores, organizações sociais, movimentos de base e lideranças comunitárias. Além de apresentar recomendações, estabelece compromissos para o período posterior às eleições, como a incorporação das diretrizes aos programas de governo ou planos de mandato e a implementação, nos primeiros 100 dias, das medidas que não dependem de aprovação do Congresso Nacional.
Em balanço divulgado em 7 de outubro, a iniciativa reunia a adesão de 83 candidaturas e 40 organizações. A mobilização alcançou diferentes disputas eleitorais e buscou estabelecer compromissos que pudessem ser acompanhados após a votação. A TETO Brasil e o Fundo FICA também preveem monitorar os avanços das candidaturas signatárias a partir de 2027.
Mais oportunidades de trabalho e melhores condições de moradia
Nos próximos quatro anos, Jacy gostaria de ver mais oportunidades de trabalho, acesso à saúde e à educação, escolas, creches, cursos de formação e maior atenção à moradia nas políticas públicas. São necessidades que fazem parte do cotidiano das famílias e que nem sempre encontram o mesmo espaço nas propostas apresentadas durante as campanhas eleitorais. Para Jacy, que acompanha essas demandas de perto, a expectativa de mudança está relacionada às condições concretas de vida dos moradores.
Em 25 de outubro, o Brasil volta às urnas para o segundo turno. No dia seguinte, as famílias de comunidades como Márcio Wanderley continuarão convivendo com necessidades que não começaram com as eleições. Os próximos anos mostrarão como os compromissos assumidos durante as campanhas poderão se transformar em políticas públicas e em mudanças percebidas nos territórios.
A trajetória de Jacy, marcada pela mudança de território, pela reconstrução da própria casa e pelo trabalho junto a outras famílias, ajuda a compreender por que essas decisões importam. Sua experiência também traz uma reflexão que ultrapassa a própria história: até quando tantas famílias precisarão recomeçar para encontrar um lugar em que possam viver com dignidade?
Para aprofundar essa discussão e conhecer as propostas da TETO Brasil e do Fundo FICA para os próximos mandatos, acesse o Policy Brief Moradia e Clima. O documento reúne diretrizes para enfrentar a precariedade habitacional e aproximar as políticas públicas das necessidades de quem vive nos territórios.
*Redatora do Blog da TETO Brasil


