*Por Melina Cattoni
No Dia da Independência do Brasil, celebrado em 7 de setembro, é comum revisitar símbolos, acontecimentos e narrativas que ajudam a formar uma ideia de Brasil. Mas essa imagem muda conforme a distância de onde se olha. Entre fronteiras, estados e cidades, existem ruas, casas e territórios cujas histórias aparecem pouco quando falamos do país como um todo.
No Recife (PE), uma dessas histórias passa pela Ocupação Márcio Wanderley, no Sítio dos Pintos. O território começou a se formar em 24 de agosto de 2024, quando parte das famílias que viviam na ocupação Chico Lessa chegou à nova área. Nos primeiros dias, madeira e lona eram descarregadas, espaços eram demarcados e moradores dividiam tarefas para levantar novamente suas casas, como registrou a reportagem da Marco Zero sobre o início da ocupação.
Pouco mais de um ano depois, o território se tornou objeto de um Trabalho de Conclusão de Curso em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco. Hélvio Alessandro de Lima Ferreira investigou o mapeamento participativo como ferramenta para reconhecer riscos, vulnerabilidades e saberes presentes na ocupação. Ao buscar uma base cartográfica atualizada para a pesquisa, encontrou uma limitação: por ser recente e estar em transformação, a comunidade ainda não aparecia com a precisão necessária nas bases consultadas.
O estudo combinou, então, observação de campo e fotografias aéreas com uma oficina de mapeamento participativo. Diante de representações ampliadas da ocupação, os moradores localizaram casas, vias internas, percursos e áreas de uso coletivo e acrescentaram situações de risco, estruturas de apoio e necessidades percebidas no cotidiano.
Como nasce um território
Parte das famílias que chegou ao Sítio dos Pintos vinha de Chico Lessa, ocupação onde a TETO já havia atuado e que, assim como Márcio Wanderley, era organizada pelo Movimento Urbano dos Trabalhadores Sem Teto, o MUST. Essa continuidade também aparece no nome do novo território: segundo relato de uma liderança comunitária concedido a TETO, Márcio Wanderley homenageia um companheiro de luta do movimento.
Luciana Oliveira de Freitas havia vivido em Chico Lessa antes da mudança. Ao falar sobre a chegada ao novo território, reconheceu a dificuldade de deixar um lugar ao qual as famílias já estavam acostumadas e começar novamente, mas também resumiu uma dinâmica daqueles primeiros dias: “todo mundo se ajuda”. Era o que a própria organização do novo espaço mostrava. A reportagem da Marco Zero encontrou famílias carregando pertences, separando materiais e dividindo tarefas enquanto reorganizavam a rotina em outro lugar.
A aproximação da TETO com Márcio Wanderley aconteceu enquanto a comunidade ainda se estruturava. O primeiro mutirão de visitas ocorreu em fevereiro de 2025. Em maio daquele ano, uma ação realizada pela TETO em parceria com a Softys, com participação de voluntários, construiu dois pontos de água filtrada para a comunidade. Meses depois, essas mesmas estruturas apareceriam no mapeamento participativo entre os pontos reconhecidos pelos moradores.
O que aparece quando o território é visto de perto
No mapeamento, os moradores registraram problemas ligados às inundações e à infraestrutura, especialmente drenagem, saneamento e energia. No mesmo território, indicaram casas que haviam acolhido famílias durante uma inundação e os dois pontos de distribuição de água tratada instalados pela TETO. Fragilidades e estruturas de apoio apareciam, assim, lado a lado no registro construído com a comunidade.
Em maio de 2026, as fortes chuvas que atingiram a Região Metropolitana do Recife voltaram a expor parte dessas fragilidades. O histórico reunido pela TETO registra alagamentos e danos às moradias da comunidade, além de moradores que tiveram casas inundadas e perderam bens.
Uma chuva pode atravessar Recife (PE) inteiro, mas encontra terrenos, casas, sistemas de drenagem e possibilidades de proteção muito diferentes conforme o endereço. É também nessas condições que o direito à moradia ganha sua dimensão cotidiana. A Constituição Federal o reconhece entre os direitos sociais previstos no artigo 6º, enquanto, na prática, morar também depende da infraestrutura que conecta uma casa ao restante da cidade: água, saneamento, drenagem, transporte e acesso a serviços.
Em Márcio Wanderley, essas questões aparecem na própria história da comunidade. Na reconstrução depois da saída de Chico Lessa, nos pontos de água, nas áreas afetadas pelas chuvas e nas necessidades identificadas pelos moradores. O TCC reuniu parte desse conhecimento ao registro técnico do território.
É também nesse conjunto de condições que a atuação da TETO se insere. Márcio Wanderley é uma das comunidades em que a organização atua no Brasil. Desde 2006, a TETO desenvolve iniciativas de moradia e habitat em conjunto com moradores de comunidades em situação de precariedade, incluindo projetos de infraestrutura comunitária. Em cada território, as prioridades são construídas a partir da aproximação com moradores e lideranças.
Neste 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil, olhar para Márcio Wanderley é reconhecer um dos muitos territórios que existem para além das imagens mais conhecidas do país. Um Brasil em que comunidades constroem história, organização e conhecimento enquanto moradia digna, infraestrutura e acesso à cidade ainda encontram condições muito diferentes para se realizar. Conheça os projetos da TETO Brasil e descubra como participar da construção de moradias e comunidades mais dignas e seguras.
*Redatora do blog da TETO Brasil

