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Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza: 5,7 milhões de famílias ainda esperam por moradia digna

  • sábado, 17 de outubro de 2026
TETO atua em comunidades hipervulnerabilizadas marcadas pela pobreza

Por Itamar Batista

No Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, os números do Brasil mostram uma queda histórica da pobreza de renda e, ao lado dela, milhões de famílias sem moradia digna. Entender essa distância é o ponto de partida do trabalho da TETO pela erradicação da pobreza.

A história do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza começa em 17 de outubro de 1987, quando mais de cem mil pessoas ocuparam a Praça do Trocadéro, em Paris, o mesmo lugar onde a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi assinada em 1948. Nesta data, estas pessoas lembraram as vítimas da miséria, da violência e da fome, convocadas pelo padre Joseph Wresinski, fundador do Movimento ATD Quarto Mundo. A história está contada na página do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU sobre a data.

Cinco anos depois, em 22 de dezembro de 1992, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução 47/196 e declarou o 17 de outubro como Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. A ONU entende a pobreza como um fenômeno multidimensional, que reúne a falta de renda e a falta das capacidades básicas para viver com dignidade. Entre as privações que se alimentam umas das outras, a lista inclui trabalho perigoso, falta de alimentos nutritivos, acesso desigual à justiça, pouca participação política, saúde limitada e moradia insegura. A conexão da TETO com a pauta está neste último ponto. Atuando em moradia e hábitat, a organização colabora para que todas as pessoas tenham acesso a um ambiente seguro para morar.

Voluntariado da TETO constrói moradia

Pobreza no Brasil: o que mudou na renda

Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, divulgada em dezembro de 2025 com dados de 2024, a proporção da população abaixo da linha de pobreza caiu de 27,3% para 23,1%, o menor valor da série iniciada em 2012, quando o índice era de 34,7%. A linha usada é a do Banco Mundial, de US$ 6,85 por dia, equivalente a R$ 694 mensais por pessoa em 2024. Ainda assim, são 48,9 milhões de pessoas nessa condição. A extrema pobreza recuou de 4,4% para 3,5% da população, o que corresponde a 7,4 milhões de pessoas, contra 9,3 milhões um ano antes. O instituto atribui a queda da pobreza, principalmente, ao aquecimento do mercado de trabalho, e a da extrema pobreza, sobretudo, aos benefícios sociais.

Em 2024, o déficit habitacional do país chegou a 5,7 milhões de domicílios, ou 7,4% dos domicílios particulares ocupados, o menor patamar da série calculada pela Fundação João Pinheiro em parceria com o Ministério das Cidades.

O maior componente deste número é o aluguel. São 3,59 milhões de domicílios, ou 62,14% do déficit, com renda de até três salários mínimos e mais de 30% dela comprometida com a moradia. Quando o aluguel consome essa fatia de uma renda já baixa, o que sobra precisa cobrir alimentação, transporte, saúde e educação. O recorte de renda confirma o peso: segundo a atualização divulgada pela FJP, 40,7% do déficit está em domicílios com renda de até um salário mínimo e outros 33,8% em domicílios com renda entre um e dois. Pessoas pardas respondem por 3,04 milhões dos domicílios em déficit, e pessoas pretas, por 774 mil.

A precariedade das moradias nas comunidades hipervulnerabilizadas

O Censo 2022 do IBGE identificou 12.348 favelas e comunidades urbanas em 656 municípios, onde viviam 16.390.815 pessoas, ou 8,1% da população. Em 2010, eram 6.329 favelas e 11,4 milhões de moradores, 6% dos brasileiros. O número de territórios quase dobrou em doze anos. Nessas comunidades, 56,8% das pessoas são pardas, contra 45,3% da população total, e 26,6% são brancas, contra 43,5% no país.

As médias, no entanto, escondem algo que, em 2025, a TETO Brasil e o Centro de Estudos das Cidades do Insper revelaram na segunda edição do Panorama Climático das Favelas e Comunidades Invisibilizadas, com dados de 119 comunidades em 51 municípios de todas as regiões. Entre elas, 69% não têm acesso a rede de saneamento básico e 70% não contam com drenagem pluvial. Entre os moradores ouvidos, 86% relatam medo constante de eventos climáticos extremos. Os diagnósticos em território que alimentam o Mapa de Direitos mostram ainda que mais de 40% das famílias das favelas mapeadas pela TETO vivem em barracos de madeira.

Na entrevista que a professora Ermínia Maricato concedeu a este blog, a urbanista aponta a terra como o “nó” da desigualdade urbana: o preço do metro quadrado separa a sociedade por renda, cor, expectativa de vida e até pelo índice de alfabetização. Ela cita o caso da tuberculose no Rio de Janeiro, concentrada, segundo o boletim epidemiológico da prefeitura, nos territórios de maior vulnerabilidade social. A casa em que se vive influencia a saúde, o sono, o estudo e o trabalho de cada pessoa que mora nela.

Como a TETO atua pela erradicação da pobreza

A TETO atua no Brasil desde 2006, mobilizando voluntariado jovem e corporativo ao lado de moradoras e moradores das favelas mais precárias e invisíveis do país. Até agosto de 2026, a organização mobilizou mais de 100 mil voluntários, construindo mais de 5.300 moradias em 48 horas e realizando mais de 327 projetos comunitários. A meta é entregar 10 mil moradias até 2030. 

A resposta de emergência evoluiu para acompanhar a crise climática. Desde 2024, a TETO Brasil constrói Moradias Resilientes, pensadas para comunidades expostas a enchentes e temperaturas extremas, com ventilação cruzada, isolamento térmico e estrutura elevada. Em Porto Alegre, a parceria com a Azul destina recursos à construção de 42 moradias na Vila Nazaré, com acesso a água potável e saneamento, para cerca de 720 pessoas afetadas pelas enchentes. A comunidade já vive um processo de reconstrução desde as chuvas de 2024, e o trabalho segue em mutirões ao longo do ano.

A casa é a primeira resposta, e não a última. Por isso a TETO também produz dados. O Mapa de Direitos é uma plataforma aberta que reúne informações coletadas nas comunidades para denunciar violações e levar às autoridades a realidade de territórios que ficam fora das estatísticas oficiais. Quem não aparece no mapa não entra no orçamento, e a pobreza se mantém onde ninguém a conta.

Como contribuir com a erradicação da pobreza sendo uma pessoa voluntária

Uma moradia digna não encerra a pobreza de uma família, mas devolve a ela um ponto fixo para estudar, trabalhar, cuidar da saúde e planejar o futuro. É por isso que dignidade habitacional faz parte da agenda de erradicação da pobreza.

Se esse caminho faz sentido para você, há formas de participar. Inscreva-se como pessoa voluntária em um mutirão ou apoie a construção de uma moradia com uma doação.

DOE AGORA

*  Editor no Blog da TETO Brasil

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