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Como a TETO constrói moradias em 48 horas?

  • terça-feira, 21 de julho de 2026

Por Itamar Batista

O sol ainda não surgiu no horizonte quando as equipes se encontram, entre 5h30 e 6h da manhã no Jardim Lapenna. É sábado. Abril de 2025. Enquanto a comunidade acorda devagar, com o barulho distante de alguém varrendo a porta de casa ou ligando o rádio baixinho, boa parte das pessoas que moram ali já saiu de casa faz tempo.

Neste horário, Waldiney, conhecido como Smyth, que mora no Jardim Lapenna há dez anos, também já está de pé. Porém, diferente de parte das pessoas que moram no bairro, ele está acordado por outro motivo. Em algumas horas, conhecerá a equipe de voluntários da TETO Brasil que, ao seu lado, construirá uma moradia para ele e seu filho de 12 anos, Cauê. 

Antes disso, por volta de 4h30, a personal trainer Estefani Melo, está acordando nas instalações do Centro de Educação Infantil (CEI) Indir Jardim Lapenna, ao lado do Galpão ZL. O espaço foi cedido para abrigar o voluntariado da TETO Brasil durante as noites da construção. Estefani é voluntária da TETO e está indo para o seu primeiro dia de construção. Ela é uma das pessoas que Smyth vai conhecer e construir moradias em 48 horas. 

O voluntariado chega ao local das construções por volta das 6h, ainda com a luz baixa do amanhecer. Antes de qualquer ferramenta tocar o chão, todas e todos se apresentam e contam suas histórias. É o momento em que duas vidas que nunca se cruzaram, como a de Smtyh e Estefani, passam a compartilhar as mesmas tarefas. Bater pregos, levantar paineis e, por fim, construir uma moradia. Os dois se conheceram na construção e, desde então, mantém uma amizade que segue firme, fortalecida nos pilotis da moradia de Waldiney, que Estefani ajudou a construir. 

A Gerente de Operações da TETO Brasil, Lais Duanne, conta que após o primeiro momento de aproximação entre voluntariado e pessoas moradoras do bairro, às 7h, a trena entra em cena. A posição da casa é medida e, antes de qualquer marcação no chão, validada com a própria família. “Essa validação da posição da moradia no terreno é realizada algumas vezes antes de iniciarmos as construções”, enfatiza.

O início das construções

Com as marcações feitas, é hora de iniciar a base da moradia. São feitos 12 buracos no chão, cavados um a um, que vão receber os doze pilotis que sustentarão a construção. A manhã do primeiro dia de construções é dedicada especialmente ao trabalho que garantirá a estabilidade da moradia. “Logo no começo da construção, nos pilotis, já nos demos bem”, conta Estefani. “O Smyth, com aquele jeito, foi chegando devagarzinho, mas foi se aproximando, e isso foi essencial. Mostrava que estava ali de fato para construir a casa junto com a gente.” Entre cavar a terra e fincar pilotis no solo, o sol sobe no céu e avisa que já é hora do almoço.

As etapas construtivas são marcadas por cerimônias que reforçam e renovam o propósito do trabalho. As marteladas dadas no último prego que fixa o piso da moradia são feitas em conjunto. “Colocamos os martelos em volta do prego e cada um dá uma martelada. Desejamos coisas boas para essa família que vai morar lá”, explica Estefani. De forma simbólica, os sonhos e desejos são a base da casa que será entregue, e isso se conecta com o papel da moradia nas vidas das pessoas. A última martelada é dada pela pessoa ou família que vai construir a história sobre esta nova fundação e sobre este novo piso.

Construção de moradias em 48H
Construção de moradias em 48H é marcada por cerimônias

Smyth guarda viva a lembrança do último prego fixado no piso de sua casa. “Lembro quais foram os pedidos”, conta. “Foram muitos desejos, um atrás do outro, e cada um deles ficou marcado. Olhei nos olhos dos voluntários e senti que o desejo vinha direto do coração de cada um.” Foi ali, ouvindo essas pessoas desejarem o bem para ele e para o filho, que Smyth sentiu algo se firmar dentro dele, tanto quanto o prego se firmava no piso. “Isso fez eu me apaixonar mais ainda pelo trabalho da TETO”, diz.

Ao finalizar as etapas construtivas da base da moradia, o sol já está baixo, quase se pondo sobre a comunidade. A equipe deixa o terreno por volta das 17h30 e segue para o alojamento, geralmente próximo à comunidade.

À noite, não há martelo nem trena. A equipe responsável pela alimentação prepara um jantar para os voluntários e moradores. Sentados à mesa, sem urgência de posicionar pilotis ou bater pregos, conversam sobre outras coisas: família, trabalho, o bairro, o que cada um fez antes de chegar ali naquele fim de semana.

O segundo dia

No segundo dia de construções, o trabalho recomeça com os primeiros raios de sol, entre 5h e 6h da manhã. Agora, com foco nas paredes e telhado. Com a fundação pronta, a moradia começa a ganhar forma no território. Durante a manhã, são posicionados os paineis das paredes e antes do almoço, já está de pé a estrutura que dá sustentação ao telhado.

Voluntariado instalando telhado em moradias que são construídas em 48H

Depois do almoço, a equipe instala o telhado, portas, e janelas. Quando necessário uma escada de acesso. Enquanto o segundo pôr do sol do fim de semana cai sobre a comunidade, o que antes era apenas um terreno vazio já é uma moradia completa.

A Gerente de Operações da TETO Brasil, Laís Duanne, conta que esse roteiro de construção de moradias em 48 horas se repete de território em território, mas nunca da mesma forma. “Cada família e pessoa voluntária traz seus próprios desejos para a moradia que está sendo construída nessas 48 horas. O cronograma é sempre o mesmo com as adaptações necessárias, mas palavras ditas em cada cerimônia, sempre trazem uma nova mensagem e reforçam a necessidade da organização da sociedade para que todos tenham acesso a uma moradia digna”.

Antes das 48 horas que erguem a moradia, e muito antes de Estefani e Smyth se conhecerem, a TETO já havia caminhado pelo Jardim Lapenna. Enquetes, pesquisas e avaliações com moradores ajudam a entender o território e a validar, junto à comunidade, onde as construções serão realizadas. Nos dias que antecedem o fim de semana da obra, entra em cena a pré-logística: o voluntariado transporta os materiais que serão usados na construção e os armazena em um ponto próximo às moradias, prontos para o início dos trabalhos. E, dias depois de a casa estar de pé, com Smyth e Cauê já dormindo sob o novo teto, uma última etapa fecha o processo: a pintura das moradias, dando à construção seu acabamento final.

A amizade entre Estefani e Smyth não terminou com a entrega da moradia. “Hoje ainda continuamos com um grupo no WhatsApp, e todas as pessoas que construíram esta moradia estão nesse grupo”, conta ela. “Sempre que tem alguma construção nova da TETO, o Smyth manda mensagem, e a gente responde.” Smyth se tornou voluntário, contribuindo na construção de outras moradias do bairro depois da sua e, mais tarde, esteve presente também numa construção na Vilinha, em Itapevi. “É muito legal saber que ele continua voltando para uma coisa que ele acredita, que faz sentido e que mudou a vida dele”, diz Estefani. “Amizades e encontros improváveis. Pessoas que eu nunca conheceria, como membros do voluntariado e que moram no Lapenna, se não tivesse participado dessa iniciativa”.

Contribua com a construção de moradias em 48 horas

Você pode colabora com a construção de novas moradias em 48 horas, assim como as do Jardim Lapenna. Para isso, acesse a página de doações no site da TETO Brasil e escolha a melhor forma para você. É possível fazer uma doação única ou se cadastrar para doar mensalmente.

Faça sua doação

*Editor do blog da TETO Brasil

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