Por Itamar Batista
Em 4 de novembro de 1900, um delegado do Rio de Janeiro assinou um documento oficial e, nele, chamou o Morro da Providência de favela. Era uma acusação: segundo a Prefeitura de São Paulo, a palavra foi usada de forma pejorativa. A origem está na Guerra de Canudos, no sertão da Bahia: os soldados que lutaram ali eram chamados de “favelados”, por causa da planta favela, comum na região, e foram morar no morro. Segundo a Agência Brasil, era com esse sentido, que a palavra circulava. Um rótulo posto de fora para dentro, que serviu para nomear um lugar inteiro.
Cento e vinte e seis anos depois, o 4 de novembro mudou de sentido. Virou o Dia da Favela, lei no município do Rio de Janeiro desde 2006, segundo a Agência Brasil, e data instituída em São Paulo pela Lei estadual 17.514, de 2022. Para a TETO Brasil, o dia serve para dar visibilidade às necessidades das populações que vivem nestes territórios e à potência que existe neles.
Favela, no conceito do IBGE, é um território popular formado pela própria população para resolver, de forma coletiva, a necessidade de moradia. Hoje, 16,4 milhões de pessoas vivem em favelas e comunidades urbanas no Brasil.
Thayná Shervis, Especialista Sênior de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil, conta que “o 4 de novembro não é apenas uma data comemorativa ou de homenagem formal, mas sim um marco de visibilidade e luta por direitos. O Dia da Favela significa reconhecer a potência, a capacidade de organização comunitária e as pluralidades presentes em cada território, sem normalizar a ausência institucional do Estado e a emergência habitacional vivenciada diariamente por famílias nessas comunidades”.
Thayná acrescenta que para quem atua na linha de frente do enfrentamento à emergência habitacional, o Dia da Favela é também um lembrete anual da urgência da nossa luta: não haverá justiça social ou adaptação à emergência climática enquanto milhões de brasileiros continuarem vivendo em condições de hipervulnerabilidade habitacional e excluídos do planejamento urbano e do orçamento público. A data é sempre uma oportunidade de transformar a luta em agenda política concreta, pautando o direito à moradia digna e à cidade como prioridades inegociáveis de Estado.
Quantas favelas existem no Brasil e quem mora nelas?
O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contabilizou 12.348 favelas e comunidades urbanas em 656 municípios, com 16.390.815 moradores, ou 8,1% da população brasileira. Em 2010, eram 6.329 territórios e 11,4 milhões de pessoas (6%). O salto reflete crescimento real e também uma mudança de conceito: até o Censo anterior, o instituto falava em “aglomerados subnormais”, como registra a Carta Capital. O termo atual reconhece esses lugares como territórios construídos pelos próprios moradores.
- Pequena. 72,5% das favelas têm até 500 domicílios. A grande favela metropolitana existe, mas é a exceção.
- Jovem e negra. A idade mediana é de 30 anos, contra 35 no país, e 56,8% dos moradores são pardos e 16,1% pretos, contra 45,3% e 10,2% na população total.
- Feminina. 51,7% dos moradores são mulheres.
- Espalhada pelo país. O Sudeste concentra 43,4% dos moradores, o Nordeste 28,3% e o Norte 20%, segundo o Censo. No Amazonas, 34,7% da população mora em favelas, a maior proporção do país.
- De acesso difícil. 19,2% dos moradores vivem em vias acessíveis apenas a pé, de moto ou de bicicleta, e 21,7% moram em trechos sem pavimentação.
O que a média esconde sobre as favelas invisibilizadas
Um dado do Censo contraria o imaginário comum: 86,4% dos domicílios em favelas têm ligação à rede geral de água, contra 83,9% no país, e 74,6% têm esgotamento adequado, contra 77,4%. A distância em relação à média nacional é pequena.
A média, porém, dilui os casos mais extremos. Em 2025, a TETO Brasil, em parceria com o Centro de Estudos das Cidades do Insper, ouviu 119 comunidades em 51 municípios de 5 regiões brasileiras. De acordo com o Panorama Climático das Favelas e Comunidades Invisibilizadas, 69% das comunidades não têm saneamento básico, 70% não contam com drenagem pluvial e 86% dos moradores ouvidos sentem medo constante de eventos climáticos extremos. Os diagnósticos da TETO nos territórios mostram ainda que mais de 40% das famílias vivem em barracos de madeira.
São esses territórios que chamamos de favelas invisibilizadas e hipervulneráveis: lugares em que se acumulam diversas vulnerabilidades, como a falta de moradia adequada, a insegurança da terra, a ausência de saneamento e o risco climático, e que raramente aparecem nos dados que orientam o orçamento público. A urbanista Ermínia Maricato disse, em entrevista ao blog da TETO, que “essa invisibilidade é a regra, não a exceção”. Para enfrentar a invisibilidade, existe o Mapa de Direitos, plataforma da TETO Brasil alimentada por censos aplicados pelo voluntariado em mutirões de visitas às comunidades. O objetivo da ferramenta é colocar no mapa as violações de direitos que acontecem nos territórios para que estes dados sirvam como subsídio para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas a esta população.
“A ausência dessas comunidades nos dados estatísticos oficiais é uma forma de exclusão institucional: o que não é mapeado não é contabilizado nem considerado no planejamento e no orçamento público. Na TETO, nosso trabalho começa no chão do território, fortalecendo capacidades comunitárias já existentes e gerando dados que dialogam diretamente com os alertas globais”, conta Thayná. A especialista em Relações Institucionais ainda acrescenta que “o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU já aponta que o risco de mortalidade por desastres climáticos nas periferias vulneráveis é até 15 vezes maior do que no centro das cidades. E o nosso Panorama Climático é o que traz essa realidade à tona, mostrando que 86% das comunidades mapeadas enfrentam eventos extremos ao menos uma vez por ano”.
Incidir em políticas públicas é criar pontes para transformar estatísticas em plano de ação. Um exemplo disso foi nossa articulação nas eleições de 2026: lançamos, em parceria com o Fundo FICA, um Policy Brief com diretrizes e propostas para posicionar moradia e clima no centro do debate político-climático. Ao todo, 83 candidaturas foram mobilizadas em 10 estados brasileiros, das quais 29 foram eleitas somando mais de 34,8 milhões de votos. A partir dessa mobilização e do compromisso dos parlamentares eleitos, a luta é para garantir que a moradia digna e as melhorias habitacionais sejam incorporadas aos orçamentos e às políticas públicas.
Thayná Shervis
A favela como potência
Economia. O Instituto Data Favela, em parceria com a CUFA, estima que favelas e periferias movimentam cerca de R$ 300 bilhões por ano em renda própria, valor maior que a renda de 22 dos 27 estados, segundo reportagem da Revista Apólice. O recorte do Data Favela (“favelas e periferias”) é mais amplo que o do IBGE, então os números não devem ser somados nem comparados. Renato Meirelles, do Locomotiva, resume: “a favela não é carência, é mercado”. A mesma pesquisa traz o outro lado: entre os empreendedores de favela, 51% apontam a falta de capital como principal obstáculo e 25%, a dificuldade de crédito.
Sociologia. Nos anos 1960, a pesquisadora Janice Perlman mostrou, em O mito da marginalidade, que as pessoas que moram em favelas não viviam à margem da cidade: estavam no mercado de trabalho e bem integrados à vida urbana. Décadas depois, voltou aos mesmos territórios e encontrou um paradoxo: os moradores tinham mais bens e mais escolaridade, e mesmo assim se sentiam mais marginalizados. A favela faz parte da cidade; a cidade nem sempre a trata como parte.
Sobre as casas sem título, Ermínia Maricato retoma, na entrevista à TETO, a leitura do sociólogo José de Souza Martins: depois da abolição, os libertos não ganharam acesso à terra, porque a Lei de Terras de 1850 já havia feito da propriedade privada um privilégio. Para Ermínia, a ocupação informal é uma tradição da classe trabalhadora brasileira, e quem fica sem alternativa acaba tratado como réu por “invasão”. O blog da TETO lembra a chave de Henri Lefebvre para esse debate, o direito à cidade: a cidade como bem comum, espaço de relações, oportunidades e pertencimento.
Políticas públicas para a favela
O arquiteto e urbanista Ygor Santos Melo, que atuou como gerente nacional de programas sociais da TETO, e Camila Jordan, Diretora de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil, fizeram uma conta em artigo vencedor de concurso do Caos Planejado: “Se hoje o Brasil começasse a urbanizar uma favela por semana, demoraríamos 230 anos”. É um exercício, como os próprios autores reconhecem, mas dá a escala do problema.
O artigo traz outros números. O Minha Casa Minha Vida, maior programa habitacional da história do país, chegou a 8,4 milhões de unidades em cerca de 15 anos, mas só 30% foram para a faixa de menor renda, que concentra 75% do déficit. No ritmo atual, seriam 22 anos para zerar o déficit dessa faixa, supondo que ele parasse de crescer. Para as famílias em situação de emergência habitacional, que vivem em barracos de madeira reaproveitada, os autores dizem que a resposta pública se resume, na prática, a ignorar ou remover. Segundo a Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional brasileiro, que mede a falta de moradias, chegou a 5,7 milhões de domicílios em 2024, o menor patamar da série e ainda assim enorme.
Ygor e Camila propõem somar soluções transitórias, como as moradias resilientes da TETO, à produção tradicional de habitação de interesse social, como a moradia emergencial. A razão, nas palavras de Ygor, é que a casa é “fundamental para sustentar, de fato, a garantia dos demais direitos”.
Thayná Shervis destaca que “a sociedade civil tem papel estratégico e complementar na luta pela moradia digna em territórios invisibilizados. Não existimos para substituir o Estado, mas sim para acelerar soluções, produzir dados e conectar a experiência do local à potência institucional para gerar mudanças estruturais. Contribuímos desenvolvendo tecnologias de resposta rápida, como a Moradia Resiliente, demonstrando na prática que é possível proporcionar dignidade e adaptação climática com eficiência e baixo custo enquanto a solução definitiva não alcança todas as famílias”.
Além disso, a TETO Brasil atua como ponte institucional no fortalecimento das capacidades locais, garantindo que as lideranças comunitárias e os próprios moradores sejam os protagonistas do diagnóstico e das soluções do seu território. O objetivo é fazer com que o saber comunitário se torne evidência técnica para orientar investimentos e políticas públicas.
O que o Dia da Favela nos pede
Para que a data renda mais do que homenagens, a TETO Brasil defende que olhar para as favelas inclua decidir sobre políticas públicas:
- Priorizar quem está na ponta. Programas habitacionais voltados às famílias de menor renda e aos territórios onde a precariedade se acumula.
- Reconhecer as soluções transitórias. Moradias emergenciais e resilientes como resposta rápida enquanto a urbanização e a regularização não chegam.
- Enfrentar o risco climático com justiça. Drenagem, saneamento e moradia resiliente, porque o eventos climáticos atingem primeiro, e de forma mais severa, quem tem menos proteção.
“Para quem decide e governa, a mensagem é direta e urgente: a emergência habitacional deve ser tratada como uma situação previsível e evitável. Precisamos agir com senso de urgência, destinando orçamento público prioritário para comunidades hipervulneráveis, reconhecendo soluções habitacionais transitórias dignas e integrando a moradia às estratégias de adaptação climática.”
Thayná Shervis
Olhar para o outro lado não pode ser uma opção. A transformação das nossas cidades exige participação ativa e transversal. Seja por meio do voluntariado em campo, do apoio ao trabalho de organizações sociais ou cobrando parlamentares e gestores por um Brasil justo e digno. Cada pessoa tem um papel a cumprir, e a transformação acontece a muitas mãos. Vamos juntos por moradia digna, para que nenhuma pessoa viva em chão de terra batida.
Constua com a TETO
Desde 2006, a TETO Brasil mobilizou mais de 100 mil voluntários, construiu mais de 5.300 moradias e realizou mais de 327 projetos comunitários. A meta é chegar a 10 mil moradias até 2030. Quer fazer parte? Inscreva-se como voluntário(a) ou faça uma doação e ajude a erguer as próximas moradias.
*Editor no Blog da TETO Brasil


