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O que é o El Niño e como ele afeta a vida nas favelas

  • sexta-feira, 12 de junho de 2026

Por Itamar Batista

Texto elaborado a partir da publicação do geógrafo e criador de conteúdo Bruno Araújo, feita em parceria com a TETO Brasil.

El Niño 2026

O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global e muda os padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta. No Brasil, o El Niño provoca efeitos opostos entre norte e sul do país: aumenta o risco de seca na faixa norte das regiões Norte e Nordeste, enquanto favorece grandes volumes de chuva no Sul. O fenômeno é cíclico e ocorre a cada dois a sete anos, mas sua intensidade e duração variam, e as mudanças climáticas provocadas pela ação humana tendem a amplificar seus impactos.

Para Gilvan Sampaio, meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o El Niño 2026 precisa ser lido dentro de um contexto maior. “A mudança do clima é o principal fator. O golpe de misericórdia, digamos assim, vem com o El Niño porque aumenta os extremos climáticos, ou seja, períodos quentes, chuvas intensas, ondas de calor. O El Niño potencializa, mas o principal é o que vem do aquecimento global. Independentemente de ter El Niño ou não, estamos vendo os extremos aumentando a frequência em toda a região tropical, principalmente”, afirma o pesquisador em entrevista à Assessoria de Comunicação do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Em outras palavras, o El Niño 2026 é um acelerador de uma crise climática que já está em curso. As chances de o fenômeno se confirmar no segundo semestre de 2026 e persistir até o fim do ano são de 82%, segundo a Agência Oceânica e Atmosférica Norte-americana (NOAA). Isso tem consequências diretas na vida de quem mora no Brasil, e elas não chegam de forma igual para todo mundo.

Nas regiões Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste e Sudeste, o El Niño 2026 tende a reduzir chuvas e aumentar períodos de estiagem, comprometendo lavouras e a disponibilidade hídrica. Isso se traduz em alta nos preços dos alimentos. O fenômeno também tende a elevar temperaturas no Centro-Oeste e no Sudeste, e em ondas de calor, idosos e crianças concentram o maior risco. Ventiladores e filtros de ar encarecem quando a crise já está instalada, então antecipar essas compras, quando há condição financeira, reduz a exposição a preços abusivos.

El Niño 2026 e desigualdade: quem sofre mais

Para quem mora em favela ou periferia, a preparação individual não resolve porque o problema começa na ausência do Estado no território. Na última década, moradores de favelas e periferias morreram 15 vezes mais por enchentes e tempestades do que populações que vivem em áreas com infraestrutura, segundo o Sexto Relatório do IPCC. Entre 2012 e 2023, ao menos cinco milhões de pessoas foram diretamente afetadas por eventos climáticos no Brasil, segundo a Defesa Civil Nacional. E o número de desastres climáticos no país cresceu 222% entre o início dos anos 1990 e o começo desta década, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas e Desastres Naturais (Cemaden). Quando os efeitos do El Niño 2026 chega a um território sem saneamento, sem drenagem e sem planejamento urbano, ele apresenta um risco à saúde e à vida das pessoas que moram nestes territórios.

A TETO Brasil acompanha e documenta essa realidade há anos. O Panorama Climático das Favelas e Comunidades Invisibilizadas, pesquisa realizada pela TETO em parceria com o Centro de Estudos das Cidades do Insper em 2025, ouviu moradores de 119 territórios em 51 municípios de todas as regiões do país. Os resultados mostram que 86% das comunidades enfrentaram ao menos um evento climático extremo no último ano. Em 58% delas, houve perda de moradias. Em 39%, o acesso ao território foi interrompido, isolando pessoas, serviços e urgências. São números que mostram que a crise climática intensificada pelo El Niño já é parte do cotidiano dessas comunidades, muito antes de qualquer previsão virar manchete. Enquanto isso, 49 milhões de brasileiros ainda não têm acesso a esgotamento sanitário adequado e 4,8 milhões não recebem água encanada, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Não é coincidência que esses mesmos territórios sejam os mais afetados quando o El Niño 2026 intensifica chuvas, secas e ondas de calor.

O que fazer diante do El Niño 2026

Mesmo com todos os limites do planejamento individual, algumas ações coletivas fazem diferença. Criar redes de alerta com vizinhos em áreas próximas a encostas ou sujeitas a alagamentos pode salvar vidas. Conhecer os canais da Defesa Civil local é uma informação que vale circular no grupo do bairro. E cobrar prefeituras e governos por planos concretos de redução de risco é o que transforma resposta emergencial em prevenção estrutural.

El Niño 2026, moradia e política: o debate que precisa chegar a Brasília

Falar de El Niño 2026 no Brasil é, necessariamente, falar de moradia. No dia 11 de junho, a TETO Brasil e o Fundo FICA realizaram o 1º Fórum Brasileiro de Moradia e Clima, no Memorial Darcy Ribeiro, em Brasília. O evento reuniu poder público, sociedade civil, academia e representantes de comunidades para debater soluções para habitação em contexto de crise climática. A partir dos debates, foi elaborado um documento a ser entregue a candidaturas presidenciais, partidos e instituições federais. Quem não puder estar presencialmente poderá acompanhar online. Quem vive em emergência habitacional está, por definição, na linha de frente de todas as crises, sem proteção, sem dados e sem voz nos espaços onde as decisões são tomadas. O Fórum existe para mudar isso.

*editor do blog da TETO Brasil

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