*Por Itamar Batista
Organizado pela TETO Brasil e pelo Fundo FICA, o 1º Fórum Brasileiro Moradia e Clima reúne especialistas, gestores públicos e lideranças comunitárias para colocar a habitação no centro do debate climático no Brasil. O Fórum propõe a construção coletiva de soluções concretas de moradia para enfrentar os impactos da crise climática em nossas cidades, favelas e comunidades populares, fortalecendo a incidência sobre políticas públicas justas e eficazes. O Fórum é a evolução do Seminário de Moradia e Clima que aconteceu, pela primeira vez, em 2025, em São Paulo.
O evento ocorrerá no dia 11 de junho de 2026, a partir das 8h, no Memorial Darcy Ribeiro, em Brasília. As discussões serão organizadas em quatro sessões temáticas com mesas-redondas multissetoriais. Poder público, sociedade civil, academia, setor privado e representantes de comunidades afetadas pelos impactos climáticos devem debater no mesmo espaço.
O Fórum reconhece moradores de favelas e periferias como detentores de conhecimento empírico, que sabem como cada evento climático interfere, prejudica e ameaça a vida e a saúde nos territórios.
A partir dos debates, será elaborado um documento de incidência política com evidências, experiências de território e recomendações concretas que será a stakeholders do campo habitacional e climático. Além da plataforma, a proposta é que a iniciativa conquiste compromissos públicos que posicionem as políticas de moradia como pilar para a resposta do país frente à crise climática, com continuidade e desdobramentos concretos.
O Fórum é fruto de um processo iniciado em 2025. Em novembro do ano passado – logo após a participação da TETO Brasil na COP30 – a organização, em conjunto com o Fundo FICA e a Somauma, realizou o Seminário Moradia e Clima em São Paulo (SP). As duas organizações criaram um espaço que reuniu diferentes discussões sobre habitação e clima. O evento confirmou a urgência do tema e a demanda por um espaço nacional e permanente de discussão.
A TETO Brasil e o FICA acreditam que esperar a próxima tragédia para colocar a habitação no noticiário é colocar vidas em risco. É preciso priorizar e agir antes que continuemos deixando a adaptação climática e resiliência de quem mais sofre com as mudanças climáticas em segundo plano.
Quem mais sofre na emergência climática
Quando uma tragédia climática assola um território, não é o clima que define quem está em risco. É a moradia.
O Brasil possui quase 6 milhões de famílias sem um lar adequado. Segundo a Fundação João Pinheiro (FJP), o déficit habitacional atingiu 5,77 milhões de domicílios em 2024. Mesmo com os recuos recentes, 25% das famílias brasileiras ainda vivem em condições de inadequação habitacional. São elas que estão na linha de frente dos desastres climáticos.
O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou mais de 12 mil favelas no Brasil, onde vivem cerca de 16,4 milhões de pessoas, 8,1% da população. Esses territórios concentram moradia precária, ausência de infraestrutura e maior exposição a enchentes, deslizamentos e ondas de calor. O IPCC, painel científico da Organização das Nações Unidas (ONU), mostra que moradores de periferias e favelas morrem 15 vezes mais devido a eventos como secas, enchentes e tempestades do que quem vive em áreas seguras.
No Brasil, conforme dados divulgados pelo Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, entre 1991 e 2022, foram registrados mais de 23.600 eventos de desastres climáticos, com cerca 3.900 mortes e 8,2 milhões de pessoas desalojadas ou desabrigadas em ocorrências ligadas a inundações, enxurradas e deslizamentos.
Bilhões gastos em emergências climáticas poderiam ser utilizados em prevenção
Em 2024, a maior enchente da história do Rio Grande do Sul atingiu quase 95% dos municípios do estado. O governo federal destinou mais de R$ 111 bilhões para a reconstrução. Hoje, ainda conforme a nota técnica, cerca de 1.942 municípios brasileiros são classificados pelo governo federal como suscetíveis a desastres. Dados da Confederação Nacional dos Municípios revelaram que os impactos de enchentes, secas e outros eventos extremos somam mais de R$ 732 bilhões de prejuízos às cidades brasileiras, sendo R$ 92,6 bilhões apenas em 2024.
O país reduziu o desmatamento, desenvolveu políticas de transição energética e sediou a COP30 em Belém (PA). Porém, a moradia segue invisível nas grandes estratégias climáticas nacionais. Ignorar esse fator aprofunda desigualdades, eleva os gastos públicos com respostas emergenciais e aprofunda vulnerabilidades que se repetem a cada novo desastre.
Uma oportunidade para empresas que querem ir além do discurso climático
A organização do Fórum busca parceiros do setor privado para realizar o evento. Os recursos contribuirão para a facilitação das mesas, garantindo a presença de representantes de comunidades afetadas, para a sistematização dos debates e para a produção e entrega do policy brief às candidaturas presidenciais e às instituições federais. Para as empresas, trata-se de uma oportunidade concreta de associar a atuação em ESG a uma iniciativa que conecta realidades territoriais, evidências técnicas e processos decisórios em escala nacional, em um momento em que as prioridades climáticas do próximo governo ainda estão sendo construídas.
Empresas interessadas em contribuir devem entrar em contato com a Diretora de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil, Camila Jordan, pelo seguinte endereço de e-mail: camila.jordan@teto.org.br
Conheça a TETO Brasil e o FICA
A TETO é uma organização latino-americana presente em 18 países que mobiliza jovens voluntários para construir soluções de moradia e infraestrutura juntamente a famílias em territórios hipervulnerabilizados. A organização atua no Brasil desde 2006 e já mobilizou mais de 100 mil voluntários, proporcionou maior qualidade de vida a mais de 5.300 famílias com moradias emergenciais e implementou mais de 327 projetos de impacto comunitário em sete estados.
O FICA é uma organização sem fins lucrativos fundada em 2015, dedicada ao direito à moradia. Atua por meio da incidência em políticas públicas e da gestão de imóveis para famílias em situação de vulnerabilidade em São Paulo (SP) e Recife (PE), com programas de locação social, recuperação de cortiços, moradia estudantil, Housing First, entre outros.
Participe dos debates sobre moradia e clima
Se você acredita que moradia digna é um direito, e que as populações mais invisibilizadas não podem continuar sendo as mais atingidas pelas tragédias climáticas e que é possível transformar debate em política pública, este é o seu lugar. Inscreva-se e venha construir junto às propostas de que o Brasil precisa.
*Redator do blog da TETO Brasil


