Por Melina Cattoni*
Antes que o Time da TETO saísse para mais um dia de atividade em Ponte Preta, na Região Metropolitana do Recife (PE), Eronildo, o Nidinho, já havia enviado uma mensagem. Quando chovia ou uma operação policial alterava a rotina da comunidade, ele avisava.
Nos outros dias, escrevia somente para dizer: “Estou aqui esperando vocês”. Essas mensagens, trocadas durante os mutirões, aproximaram Nidinho e Márcio, coordenador de comunicação da TETO em Pernambuco. Neste Dia do Amigo, a história dos dois mostra como os vínculos criados nos territórios podem continuar além dos projetos.
No início, Márcio recebia aquelas informações como parte da organização das visitas. Era importante saber o que havia acontecido no território antes de chegar, se o acesso estava tranquilo e o que poderia interferir na atividade planejada. Meses depois, as mesmas mensagens ganharam outro sentido. Em uma comunidade onde reunir os moradores era um desafio constante, Nidinho fazia questão de lembrar que a presença da TETO não passava despercebida.
O projeto começou no primeiro semestre de 2025 e previa a construção de uma sede comunitária destinada a reuniões, oficinas e cursos de capacitação. Embora maior, a estrutura seguiria um processo semelhante ao das moradias emergenciais: preparação do terreno, fundação e montagem das peças em mutirões realizados por moradores e voluntários. Algumas escolhas poderiam mudar, como o número de portas e janelas ou os materiais utilizados, mas a lógica do trabalho permaneceria coletiva.
A parte menos previsível não estava na obra. Para que a sede cumprisse sua função, ela precisava encontrar lugar na vida da comunidade. Não bastava concluir a estrutura e entregar as chaves. Era necessário reunir pessoas dispostas a pensar como aquele espaço seria usado, quais atividades receberia e de que maneira poderia responder às necessidades de Ponte Preta.
Como funciona a mobilização comunitária da TETO?
Na TETO, o modelo de trabalho começa pelo diagnóstico do território e pelas mesas de trabalho, espaços em que moradores e voluntários conversam sobre a realidade local, identificam prioridades e planejam as iniciativas que serão desenvolvidas.
Os moradores conhecem a história, as urgências e a dinâmica do lugar onde vivem. A equipe contribui com metodologias, recursos e experiências acumuladas em outros territórios. Em Ponte Preta, criar essa confiança exigia tempo. Algumas pessoas demonstravam interesse, mas não compareciam às atividades. Outras participavam de um encontro e não voltavam. A baixa participação provocava dúvidas.
Cada atividade exigia planejamento, deslocamento e disponibilidade dos voluntários. Era difícil saber se os convites estavam chegando às pessoas, se o projeto fazia sentido para elas ou se havia outras questões impedindo sua aproximação. A mobilização, tantas vezes representada por uma reunião cheia ou um mutirão movimentado, ocorria em uma escala menor ali.
Foi durante esse processo que Márcio conheceu Eronildo, o Nidinho. Ele logo se envolveu com a construção: carregava materiais, acompanhava as tarefas e opinava sobre cada etapa. Às vezes, quase não deixava trabalho para os voluntários e Márcio precisava lembrá-lo de que eles também estavam ali para aprender.
Ao falar do amigo, Márcio o descreve de forma simples: Nidinho é “esse cara ajudante, proativo e engraçado, que palpita em tudo”. A frase também revela o carinho com que Márcio recorda os excessos. O mesmo impulso que fazia Nidinho assumir tarefas demais era aquele que o levava a chegar cedo, permanecer durante a atividade e se oferecer quando faltavam pessoas.
O humor era frequente nos mutirões. Nidinho criava apelidos e tinha assunto mesmo nos dias mais cansativos. Márcio associa o jeito de Nidinho à autenticidade, característica de quem não tenta controlar cada gesto ao se aproximar das pessoas. Ele chega, participa, provoca e deixa alguma coisa de si no ambiente. Às vezes, precisa rever uma fala. Em muitas outras, consegue fazer as pessoas sorrirem e torna o trabalho mais leve. Nidinho se fazia presente no trabalho, na ferramenta que empunhava e na mensagem enviada para saber a que horas a equipe chegaria.
Dona Hilda, mãe de Nidinho, também se aproximou dos voluntários. Márcio a descreve como uma mulher sem “papas na língua”, brincalhona e cozinheira de mão cheia. Durante os mutirões, ela se dedicava ao preparo das refeições e fazia questão de que todos comessem bem. Enquanto parte do grupo trabalhava, Dona Hilda organizava a mesa e reunia moradores e voluntários em conversas que iam muito além da construção.
Era ali que as pessoas descansavam, contavam histórias e deixavam de se reconhecer apenas pelas funções ocupadas naquele dia. Quem havia chegado para carregar madeira ou montar uma estrutura começava a conhecer a família que oferecia café, comida e um lugar para se sentar.
Ponte Preta mostrava que a participação nem sempre obedecia a uma única forma. Nidinho acompanhava as atividades e mantinha a equipe informada. Dona Hilda acolhia quem chegava. Alex, outro morador, também estava presente nos mutirões. Eram poucas pessoas diante da mobilização que a TETO desejava alcançar, mas o envolvimento de cada uma delas pedia um olhar mais atento sobre o que acontecia no território.
Márcio já havia vivido uma mudança parecida quando conheceu a organização. Em 2019, uma amiga da faculdade contou sobre o voluntariado da TETO e a proposta de atuar junto com os moradores despertou seu interesse, mas também algum receio. A ideia de passar um fim de semana longe de casa e com pessoas que não conhecia não pareceu simples. Mesmo assim, decidiu participar. No dia da abertura das inscrições, tinha uma prova e correu para terminá-la a tempo de garantir a vaga.
No sábado da construção, a insegurança perdeu força. Márcio também vinha de uma família simples, mas o contato com a comunidade o fez perceber privilégios que ainda não enxergava com clareza. Antes de começar a escavar, já sabia que queria permanecer. Sentia que poderia aprender, criar vínculos e participar de algo que não terminaria naquele fim de semana.
Quase sete anos depois, as relações criadas nos territórios continuam dando sentido à sua presença na TETO. Como psicólogo, Márcio reconhece que essas experiências mudaram sua forma de escutar e de compreender as relações de cuidado. Cada comunidade acrescentou pessoas, perguntas e situações que seguiram com ele depois das atividades.
Nidinho é uma dessas pessoas. Ele não ocupava uma função formal de liderança, mas conhecia os moradores, explicava a dinâmica do território e compartilhava informações que dificilmente chegariam à equipe de outra maneira. Era quem avisava sobre a chuva e sobre os acontecimentos capazes de alterar a rotina local. Nos intervalos entre as visitas, mantinha o contato com a equipe.
Márcio passou a chamá-lo de elo entre a TETO e Ponte Preta. A palavra não vinha de um cargo, mas da função que Nidinho assumiu na prática. Quando a participação diminuía, era sua mensagem que chegava. Márcio se recorda de que, nesses dias, os voluntários pensavam: “Precisamos ir. O Nidinho está esperando”. A organização havia chegado a Ponte Preta disposta a mobilizar os moradores, mas também era chamada de volta por um deles.
Amizade entre moradores e voluntários continua além dos projetos
A amizade de Márcio e Nidinho não é um caso isolado. Em Pernambuco e em outros estados, voluntários e integrantes das equipes da TETO mantêm vínculos próximos com moradores das comunidades onde atuam. São relações que começam durante uma atividade, mas continuam em mensagens, convites, cafés compartilhados e conversas que já não dependem da existência de um projeto.
Foi assim também com Larissa Isadora e Rosenilda de Paula, a Nenê. Larissa, na época, coordenadora social da TETO no Paraná, conheceu Nenê, liderança da comunidade Santos Andrade, em Curitiba (PR), durante uma construção de moradias realizada em 2019. A amizade se fortaleceu em outras ações comunitárias e passou a fazer parte da vida das duas. A história de Larissa e Nenê, compartilhada no nosso blog, mostra algo que também se repete na relação de Márcio e Nidinho: o primeiro encontro acontece durante um projeto, mas a amizade continua para além dele.
Esses vínculos transformam a maneira como moradores e voluntários se reconhecem. Não se trata apenas de uma organização que leva uma proposta ou de pessoas que aguardam soluções prontas. Há conhecimentos, responsabilidades e vivências diferentes. A construção coletiva ganha sentido quando cada pessoa se reconhece como autora do que acontece no território.
Márcio percebe isso nas pequenas formas de acolhimento que observa durante as visitas. Há moradores que mandam mensagens, convidam para aniversários, preparam um café ou separam uma muda de planta para lhe dar, embora ele admita, rindo, que muitas vezes é ele quem pede. Nenhum desses gestos aparece nas entregas formais de um projeto, mas são eles que fazem a presença no território deixar de ser apenas uma tarefa.
Na relação com Nidinho, essa proximidade ganhou continuidade. Ele criou um grupo de WhatsApp com os voluntários de quem havia se aproximado. O espaço continuou ativo entre um mutirão e outro, levando as brincadeiras e as conversas para além da comunidade.
O convite para o aniversário de Nidinho marcou uma nova etapa na relação. Márcio percebeu que já não era procurado apenas como coordenador ou como alguém ligado à construção. Havia entrado em uma parte da vida do amigo que não dependia do projeto. Depois, vieram as ligações, as mensagens sobre saúde e as conversas sem um assunto previamente definido. Hoje, os dois tentam combinar uma visita à casa nova de Nidinho.
Nidinho encontrou outra maneira de levar adiante a experiência. Mesmo sem ter participado da construção de moradias emergenciais em sua própria comunidade, aceitou o convite para atuar em outros territórios. Ao lado de Alex, esteve nas duas construções seguintes realizadas pela TETO em Pernambuco. Um carro os buscava em Ponte Preta e os levava até comunidades que não conheciam, onde passavam o dia trabalhando com outras famílias.
Até então, os voluntários atravessavam a cidade para chegar à comunidade de Nidinho. Agora, ele fazia o caminho de volta com eles. O morador que enviava mensagens para dizer que estava esperando chegava a outros territórios como parte do grupo responsável pelo mutirão.
Ao contar essa história, Nidinho diz que “entrou na TETO para construir”. Sua escolha de palavras revela uma relação diferente daquela que costuma separar quem realiza um projeto de quem o recebe. Ele se reconheceu como parte do trabalho e fez com que uma experiência iniciada em Ponte Preta alcançasse outras comunidades.
Uma experiência vivida em determinado território seguia para outro pelas mãos de alguém que, meses antes, havia sido chamado a participar pela primeira vez. Nidinho não precisava conhecer as famílias para compreender o que significava chegar cedo, dividir as tarefas e permanecer até o fim do dia.
A oportunidade de atuar em outros mutirões não substituiu a sede comunitária que Ponte Preta deveria ter recebido. A obra permaneceu inacabada, e a dificuldade de mobilização não desapareceu. Ainda assim, essas trajetórias mostram que o projeto produziu encontros que continuaram encontrando espaço depois de sua interrupção.
Para Márcio, a primeira constatação feita pela equipe já não bastava para explicar o território. A baixa participação era um dado real, mas havia moradores que sustentavam a aproximação de maneiras diferentes. Dona Hilda fazia isso ao redor da mesa. Alex levou a experiência iniciada no projeto para a vida profissional. Nidinho manteve a equipe conectada à comunidade e, depois, atravessou a cidade para participar de outras construções.
A quantidade de pessoas envolvidas continuava pequena. Os efeitos de algumas relações, porém, já alcançavam outras comunidades. Essa experiência ampliou a forma como Márcio compreendia a mobilização comunitária. Reunir moradores era importante, assim como criar espaços coletivos de decisão e concluir uma obra necessária para o território. Havia também uma dimensão que não aparecia tão facilmente nos registros: o momento em que alguém deixava de participar somente da atividade realizada em uma comunidade e passava a se sentir responsável por uma construção compartilhada.
Foi essa mudança que transformou Nidinho em uma referência para Márcio. Sua presença ajudou a equipe a continuar voltando quando a mobilização parecia frágil. Depois, foi ele quem saiu de Ponte Preta para acompanhar a TETO em outras comunidades. Entre um território e outro, a relação criada durante os mutirões também encontrou espaço para amadurecer.
Márcio e Nidinho continuam trocando mensagens, lembram as brincadeiras, falam sobre a vida e tentam marcar uma visita à casa nova. Não precisam mais de uma atividade programada para se encontrar.
Esta é uma das histórias que ganham forma quando moradores e voluntários constroem juntos. Conheça outras histórias no blog da TETO e descubra como fazer parte dessa transformação.
*redatora do blog da TETO Brasil


