* Por Melina Cattoni
Há muitas formas de conhecer o Brasil. Algumas pessoas escolhem as praias, as capitais ou os pontos turísticos mais famosos. Petra Frey encontrou outro caminho. Sempre que a agenda permite, faz as malas para participar de uma construção da TETO em outra cidade. Foi assim que a advogada e engenheira aeronáutica percorreu diferentes estados e chegou a comunidades que dificilmente entrariam em um roteiro convencional de viagem.
Desde então, Petra participou de cerca de 70 eventos da organização, aproximadamente 60 deles em construções. Ela esteve em iniciativas em todos os estados onde a TETO atua ou atuou: Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Goiás. Nesse percurso, calcula ter conhecido mais de 30 comunidades. Os números ajudam a dimensionar a trajetória, mas dizem pouco sobre seu início. Antes de ganhar a extensão de um mapa, sua relação com o voluntariado nasceu de um interesse quase doméstico: o gosto por trabalhar com madeira e realizar atividades manuais.
O primeiro contato com a TETO aconteceu em 2013, durante uma palestra na Universidade de São Paulo (USP). Petra se interessou pela possibilidade de colocar em prática algo de que sempre gostou e usar essa habilidade em benefício de outras pessoas. Foi isso que a aproximou da organização. Ela começou participando das coletas e, em 2015, passou a integrar também as construções.
A princípio, enxergava ali uma oportunidade de aplicar conhecimentos técnicos, manusear ferramentas e contribuir de maneira concreta com a organização. Ao fim de cada jornada, o esforço coletivo ganhava forma. Os fins de semana traziam também encontros, conversas e a aproximação com realidades distantes de sua rotina. Aos poucos, Petra percebeu que a experiência não se encerrava com a construção, pois o que via e escutava continuava com ela.
O voluntariado deixou de ser apenas um espaço e passou também a deslocar certezas e produzir perguntas que não desapareciam com o retorno para casa. Uma delas dizia respeito à própria trajetória profissional da engenheira.
Foi o voluntariado que me fez buscar o Direito.
Até então, Petra atuava como engenheira aeronáutica, mas sentia falta de um caminho que lhe permitisse contribuir de maneira mais direta para questões sociais. O contato com as comunidades deu contorno a essa inquietação. Nas construções, a moradia aparecia como uma necessidade imediata, mas nunca desvinculada de outras dimensões da vida. Uma casa não se encerra em suas paredes. Ela envolve a possibilidade de permanecer em um lugar, o acesso à cidade, à infraestrutura, ao saneamento e aos serviços públicos, além das condições necessárias para organizar a vida com segurança e dignidade.
O Direito surgiu, então, não como ruptura, mas como ampliação. A engenharia permaneceu. Enquanto uma formação lhe permitia compreender estruturas, processos e soluções concretas, a outra oferecia instrumentos para pensar as relações sociais e os direitos ligados à moradia. Nas construções, Petra participava de uma resposta imediata. Na nova formação, buscava compreender as estruturas que antecediam e cercavam aquela necessidade.
Essa mudança aconteceu antes das primeiras viagens para outros estados. Quando elas começaram, o voluntariado já não ocupava um espaço separado em sua vida.
Cada comunidade, um Brasil diferente
A primeira construção fora de São Paulo aconteceu pouco antes da pandemia. A ideia surgiu durante uma conversa com uma voluntária do Rio de Janeiro, que Petra havia conhecido em uma atividade da TETO. As duas falavam sobre as comunidades onde atuavam e sobre como as experiências variavam de um lugar para outro. A conversa despertou uma curiosidade que logo se transformou em decisão: Petra queria conhecer de perto o que havia de singular em cada paisagem e comunidade.
O primeiro destino foi Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ). Depois vieram construções na Bahia, em Pernambuco, no Distrito Federal, no Paraná, em Minas Gerais, em Goiás, no Rio Grande do Sul e em outros lugares onde a organização atuou ao longo dos anos. Nenhuma dessas viagens fazia parte de um roteiro institucional. Petra se organizava por conta própria sempre que conseguia conciliar o trabalho com os deslocamentos. Era preciso abrir espaço na agenda, calcular o percurso e chegar a uma cidade sobre a qual, muitas vezes, ainda sabia pouco.
O voluntariado se tornou uma forma particular de percorrer o país. Em vez de pontos turísticos, seu mapa era marcado por comunidades. Cada viagem começava com a entrada em um território que exigia atenção. A experiência acumulada ajudava, mas não eliminava o desconhecido. Petra chegava levando o que havia aprendido nas ações anteriores, sabendo que talvez não bastasse para compreender a seguinte.
Mudavam as paisagens, os sotaques, as referências culturais e as formas de organização. As relações das comunidades com o espaço, com as lideranças locais e com a própria história também assumiam formas distintas. Até os desafios que pareciam semelhantes adquiriam contornos particulares.
A falta de moradia adequada, de infraestrutura e de acesso a serviços básicos reaparecia em diferentes estados, mas nunca como uma realidade idêntica. Em cada lugar, essas ausências conviviam com os vínculos entre moradores, as redes de apoio e as estratégias criadas para enfrentar o cotidiano.
As experiências se aproximavam em alguns pontos, mas nenhuma servia de medida para a seguinte. A cada viagem, o Brasil se tornava menos abstrato e mais difícil de resumir. As distâncias deixavam de existir apenas no mapa. Apareciam também nas oportunidades, na presença dos serviços públicos e nas formas de acesso a direitos básicos. Mas o percurso revelava ainda modos distintos de organizar a vida, sustentar relações e construir respostas coletivas.
O território para além das ausências
Petra também compreendeu os limites de um olhar que reconhece uma comunidade apenas pelo que lhe falta. As precariedades existiam e não podiam ser suavizadas, mas tampouco diziam tudo. Havia conhecimento, memória, liderança e articulação. Havia relações que antecediam a chegada dos voluntários e continuariam ali depois que eles partissem. Conhecer cada lugar exigia atenção tanto às necessidades quanto ao que seus moradores já vinham construindo.
Ela chegou à TETO pensando no que poderia fazer. Com o tempo, aprendeu também a observar, escutar e reconhecer aquilo que já estava sendo feito. Ela costuma dizer que se vê da mesma maneira dentro e fora da organização.
O voluntariado não se tornou uma identidade à parte, uma atividade isolada ou uma pausa na rotina. Influenciou sua escolha pelo Direito, ampliou sua percepção da moradia e orientou parte dos caminhos que percorreu pelo Brasil. Em cada construção, Petra levava conhecimentos reunidos ao longo dos anos. Voltava também com novas perguntas.
Talvez por isso a contagem de eventos, estados e comunidades seja apenas uma parte dessa história. O que Petra reuniu ao longo das viagens não cabe inteiramente em números. São experiências que, juntas, formam uma imagem fragmentada e, ainda assim, mais nítida do país.
Entre uma construção e outra, conheceu diferentes Brasis. Não aqueles dos cartões-postais, mas os que surgem quando alguém deixa os caminhos habituais e se dispõe a escutar o que cada lugar tem a dizer.
Toda transformação começa quando alguém decide se aproximar. Continue conhecendo histórias de quem transforma territórios com a TETO e faça parte da construção de comunidades mais justas.
* redatora do blog da TETO Brasil


