*Por Melina Cattoni
Jardim Gramacho costuma ser lembrado pelo antigo aterro sanitário que, durante mais de três décadas, recebeu grande parte dos resíduos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Reduzi-lo, porém, à sua relação com o lixo significa deixar de enxergar um território muito mais complexo. Formado por diferentes comunidades, o maior bairro de Duque de Caxias (RJ) reúne histórias marcadas pela migração, pelo trabalho e por profundas desigualdades urbanas que continuam moldando a vida de milhares de pessoas. O encerramento das atividades do aterro, em 2012, alterou a dinâmica econômica da região, mas não foi suficiente para reparar décadas de ausência de investimentos, infraestrutura e oportunidades.
É nesse território que Fábio Carlos dos Santos, conhecido como Magrão, vive há quase toda a vida. Cresceu no bairro, conhece as ruas, as pessoas e as histórias que circulam entre elas. Ainda assim, costuma dizer que só começou a enxergá-lo de outra maneira depois que se tornou voluntário da TETO Brasil. A frase parece contraditória. Como alguém pode passar décadas vivendo em um lugar sem conhecê-lo completamente?
Talvez porque Jardim Gramacho não seja um território que se revele de uma única vez. Cada comunidade guarda histórias, dinâmicas e desafios próprios. Há lugares separados por poucos quilômetros, mas que parecem pertencer a realidades diferentes. Foi percorrendo esses caminhos, conhecendo moradores e participando de atividades em áreas onde antes quase não passava, que Magrão começou a descobrir novas camadas do lugar onde sempre viveu.
Filho de uma família pernambucana, com raízes negras e indígenas, cresceu acompanhando uma trajetória comum a muitas famílias da Baixada Fluminense: a migração em busca de oportunidades e a construção da vida em um território em constante transformação. Criado pelos avós maternos enquanto os pais trabalhavam, hoje, aos 40 anos, atua com pintura e manutenção predial e mantém uma rotina próxima dos amigos e da família.
Durante muitos anos, sua experiência em Jardim Gramacho esteve concentrada nos caminhos que percorria diariamente, nas relações que construía e nos espaços que já conhecia. Algumas das comunidades mais vulneráveis do bairro permaneciam próximas geograficamente, mas distantes da sua vivência.
Como o voluntariado mudou o olhar sobre o território
Essa relação começou a mudar quando um amigo comprou um barraco e iniciou a construção da própria casa. Ao acompanhar aquele processo, Magrão passou a frequentar lugares que antes conhecia apenas de passagem. Pouco tempo depois veio o encontro com a TETO. À primeira vista, imaginava que sua participação estaria ligada principalmente às construções.
Logo percebeu, porém, que elas eram apenas uma parte da experiência. As formações e iniciativas como o Escutando a Comunidade (ECO) ampliaram seu olhar para Jardim Gramacho e despertaram um interesse crescente pela história e pelas diferentes comunidades do bairro.
Com o tempo, passou a conhecer novas pessoas, aprofundar discussões sobre o bairro e enxergá-lo de outra maneira. Começou a estudar sua história, compreender melhor as diferentes comunidades e entender os impactos deixados pelo fechamento do aterro sanitário, um acontecimento que reorganizou a vida de milhares de famílias e redefiniu a dinâmica da região.
O lugar onde sempre viveu deixou de ser apenas o cenário da rotina e passou a despertar novas perguntas. Para quem vê de fora, uma moradia emergencial pode parecer uma intervenção simples. Com o passar dos anos, Magrão acompanhou famílias que começaram em uma casa de 18 metros quadrados e, pouco a pouco, ampliaram seus espaços, fizeram melhorias e conquistaram mais estabilidade.
Foi observando essas transformações que percebeu que o impacto da construção não terminava quando a última telha era instalada. As reformas realizadas pelas próprias famílias, as adaptações feitas ao longo do tempo e os novos projetos que surgiam mostravam que a moradia representava apenas o início de um processo maior.
Quando fala sobre o impacto da TETO, Magrão costuma destacar menos aquilo que é entregue e mais a forma como esse processo acontece. Antes que uma casa seja construída, moradores e voluntários participam juntos de reuniões, momentos de escuta das comunidades e mutirões. Famílias acompanham cada etapa da obra e também colocam a mão na massa, transformando a construção em um processo coletivo. Para ele, é nesse encontro que algo começa a mudar. A experiência fortalece vínculos, amplia o conhecimento sobre o território e cria caminhos que continuam sendo construídos muito depois da conclusão da casa.
Ao observar tantas famílias ampliarem as moradias, adaptarem os espaços às necessidades do dia a dia e realizarem melhorias ao longo do tempo, uma percepção amadureceu silenciosamente: a construção da casa era importante, mas o que acontecia depois dela dizia muito sobre o potencial de um território quando as pessoas encontram condições para transformá-lo.
Esse olhar também se expandiu à medida que Magrão passou a participar de atividades em outras comunidades da região. Muitas delas eram próximas o suficiente para serem alcançadas de bicicleta, mas carregavam histórias completamente diferentes daquelas que ele conhecia. Quanto mais circulava, mais compreendia que cada lugar possui uma identidade própria, marcada por relações, memórias e desafios que dificilmente podem ser percebidos por quem apenas passa por ali.
Uma das experiências mais marcantes aconteceu durante uma atividade em uma aldeia indígena, em Maricá. O contato com uma comunidade que mantinha vivas suas tradições despertou reflexões sobre ancestralidade, pertencimento e memória. Até então, ele nunca havia pensado muito sobre as próprias origens. Filho de uma família pernambucana, descendente de negros e indígenas, passou a olhar também para sua história de outra maneira.
A experiência reforçou uma percepção que vinha sendo construída ao longo dos anos. Assim como as pessoas carregam histórias que nem sempre são visíveis à primeira vista, os territórios também guardam camadas que só se revelam quando há tempo para escutar, caminhar e criar vínculos. Conhecer um lugar, descobriu Magrão, vai muito além de saber onde ficam suas ruas. É compreender quem vive nelas.
Em determinado momento, ele se afastou da TETO e passou um período morando em Maricá. A distância, porém, não rompeu a relação construída ao longo dos anos. Quando recebeu o convite para voltar, percebeu que ainda havia muito a fazer em Jardim Gramacho — e talvez muito mais a aprender sobre o bairro onde sempre viveu.
O exemplo que atravessa gerações
Com o tempo, a experiência também passou a atravessar sua própria família. Seu filho, Carlos Henrique, de 16 anos, participa das atividades da TETO por incentivo do pai, com uma condição estabelecida desde o início: manter a frequência escolar e boas notas.
Magrão espera inspirar o filho por meio do próprio exemplo. Por isso, evita explicar o que a TETO representa para ele. Prefere que a experiência fale por si. Quer que o jovem conheça as comunidades, converse com moradores e construa as próprias conclusões. Assim como aconteceu com ele, acredita que compreender um território depende menos das respostas prontas e mais da disposição para ouvir, caminhar e criar vínculos.
Hoje, quando recebe novos voluntários em Jardim Gramacho, costuma compartilhar histórias sobre o bairro, explicar como as comunidades se organizam e apresentar um território que raramente aparece para quem conhece a região apenas pelas notícias sobre o antigo aterro sanitário. Muitos chegam para construir uma casa. Ao longo dos dias, acabam descobrindo um bairro muito mais diverso e complexo do que imaginavam.
A situação não deixa de ser curiosa. Depois de viver praticamente toda a vida em Jardim Gramacho, Magrão passou a conduzir novos voluntários por um território que um dia também precisou reaprender. Ao caminhar pelas comunidades ao lado deles, percebe que, de certa forma, revive o próprio percurso. Cada conversa, cada visita e cada construção reafirmam uma descoberta que começou anos atrás.
Jardim Gramacho continua sendo o mesmo bairro onde cresceu. As ruas permanecem ali, muitas das pessoas também. O que mudou foi a forma de percorrê-las. Foi tentando ajudar a construir casas que Magrão encontrou outra maneira de conhecer o lugar onde sempre viveu. Descobriu que um território se revela menos pelo tempo que passamos nele do que pelas relações que construímos com quem o habita.
A história do Magrão mostra que o voluntariado pode transformar comunidades e quem escolhe fazer parte delas. Se você quer conhecer os territórios onde a TETO atua e construir ao lado de moradores e voluntários, descubra como participar.
*Redatora do Blog da TETO Brasil.


