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Moradia precária no inverno: como o frio agrava a vulnerabilidade nas favelas

  • domingo, 21 de junho de 2026

Por Sarah Mariah

O inverno no Brasil começa oficialmente em 21 de junho e se estende até setembro, trazendo consigo a queda das temperaturas e o aumento da umidade em boa parte do território nacional. Para a maior parte da população, essa estação é associada aos agasalhos, às noites de sono sob cobertas pesadas e ao conforto de uma casa aquecida. Para a TETO Brasil, no entanto, o inverno remete primeiro à moradia, e em seguida à adaptação climática. Para milhões de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social, o frio que se intensifica representa um desafio distinto: moradias marcadas pelo mofo nas paredes, por goteiras persistentes e pelo risco constante de doenças respiratórias, que atingem sobretudo crianças e idosos.

O problema começa na estrutura da casa. O Panorama Climático das Favelas, pesquisa realizada  pela TETO Brasil em parceria com o Insper, revela que 69% dos moradores de comunidades enfrentam diariamente problemas relacionados ao calor ou frio excessivos, à entrada de insetos e roedores, e à infiltração de água ou umidade. Para essa maioria que não tem a segurança de um teto adequado, a chegada do inverno representa mais uma dificuldade a ser enfrentada: o desconforto térmico. 

O que os dados demonstram

Ainda citando o Panorama, concluímos que as mudanças climáticas afetam as pessoas que vivem nestes territórios não por responsabilidade delas, mas por omissão do Estado. O poder público falha ao ignorar a necessidade de ações de prevenção contra os efeitos da crise climática. 

Nos territórios, o frio impacta a vida de maneira diferente das ondas de calor. Estudos destacados no Panorama apontam que, enquanto as ondas de calor e as enchentes fluviais (que somam 60% dos desastres urbanos) são responsáveis por cerca de um terço das mortes imediatas nas cidades, os eventos de frio intenso e as secas são os que mais interferem a vida em termos de alcance absoluto, afetando 42% e 39% da população urbana, respectivamente. Nas periferias brasileiras, as baixas temperaturas agem como vetores de adoecimento, impulsionando a proliferação de fungos e bactérias devido à umidade acumulada, além de facilitarem o surgimento de insetos e roedores e o aumento dos casos de doenças respiratórias crônicas.

A ausência de isolamento térmico adequado, a precariedade estrutural das moradias e a falta de vestuário correto contribuem diretamente para o agravamento dessa situação. Para essa parcela da população, não há a possibilidade financeira de comprar aquecedores elétricos para os dias mais frios, de arcar com o aumento da conta de luz ou de reformar o lar para conter as infiltrações em épocas de chuva. A vulnerabilidade se materializa na exposição forçada ao rigor do clima.

O CEP como um determinante social

A garantia de direitos básicos ainda é determinada pelo lugar onde se vive. Quando a precariedade habitacional, a ausência de saneamento básico, a escassez de políticas públicas e a falta de arborização urbana se concentram em territórios específicos, estamos diante do que a sociologia e o direito chamam de racismo ambiental. Esse conceito traduz como as populações historicamente marginalizadas são obrigadas a viver em áreas mais vulneráveis, onde faltam dispositivos do estado, tornando-se os alvos primários das intempéries climáticas e do descaso institucional.

Essa lógica de exclusão territorial se manifesta de forma alarmante tanto nos contextos urbanos quanto nos mais isolados. Segundo dados extraídos do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ranking dos 366.909 domicílios brasileiros que sequer possuem banheiro ou sanitário, o município de São Gabriel da Cachoeira (AM) aparece no topo da lista. Sendo a segunda cidade com maior concentração de habitantes indígenas no país (cerca de 48,3 mil pessoas), o local contabiliza 4.168 moradias nessas condições desumanas. Dos mais de 10.600 domicílios totais da cidade, apenas 352 contavam com acesso a uma rede geral, pluvial ou a uma fossa ligada à rede coletora. 

Esse mesmo padrão de segregação geográfica se replica, com contornos próprios, nas periferias e favelas das grandes metrópoles brasileiras. Cabe lembrar que esses territórios não são definidos apenas pela escassez. Conforme aponta a pesquisa Sonhos da Favela, realizada pelo Data Favela nas cinco regiões do país, as comunidades reúnem uma população majoritariamente jovem, negra, trabalhadora e dotada de projetos concretos de futuro. Porém, estes sonhos coexistem com desafios estruturais persistentes que sufocam o seu desenvolvimento em áreas que vão desde a falta de segurança habitacional até os gargalos na educação e na saúde. O problema, portanto, não está na população, mas na negligência do Estado nas necessidades destes territórios.

Colabore com a mudança

A TETO Brasil atua nestes territórios mobilizando o voluntariado jovem e corporativo para, em parceria direta com os moradores, mitigar a emergência habitacional, construindo soluções em habitat e infraestrutura que garantam condições dignas de habitabilidade. Faça parte do voluntariado!

*Redatora do blog da TETO Brasil

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