
* Por Melina Cattoni
Maria Jaciara Ribeiro da Silva ainda guarda o caderno com os nomes dos moradores da comunidade de Chico Lessa, no Recife (PE). Quando chegou a hora de deixar a ocupação, foi nele que anotou para onde cada família seguiria. Enquanto as casas eram desmontadas, ela permaneceu no território, ajudando a organizar as mudanças, acompanhando os moradores e tentando garantir que todos soubessem para onde ir.
Para quem observava de fora, era apenas um caderno. Para ela, o objeto reunia os caminhos de uma comunidade inteira. Jacy é uma mulher negra que encontrou na luta por moradia digna a possibilidade de reconstruir a própria vida.
Celebrado em 25 de julho, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha convida a olhar para histórias como dela, em que moradia, autonomia e cuidado coletivo se entrelaçam. A data nasceu em 1992, durante um encontro de mulheres negras da América Latina e do Caribe, em Santo Domingo. No Brasil, também homenageia Tereza de Benguela e as mulheres negras.
A casa de Jacy também estava entre as que seriam derrubadas. Tinha três quartos, terraço e uma piscina para os filhos. Ela havia construído tudo aos poucos, com parte do dinheiro do Bolsa Família e com o que conseguia economizar desde que deixara de pagar aluguel. Ao falar da casa, escolhe palavras simples: “meu pedacinho, minha conquista”.
Era ali que havia reconstruído a vida com os filhos. Naquele dia, porém, estava envolvida com a saída das outras famílias. Não conseguiu retirar os materiais da própria moradia e, quando percebeu, o trator já havia chegado.
Muitos moradores nunca souberam que, enquanto ela anotava seus nomes e acompanhava seus destinos, a casa dela também desaparecia. Ao relatar o que aconteceu, Jacy não se demora no que fez pelas outras pessoas. A tristeza aparece quando se lembra do que havia construído para os filhos e da rapidez com que viu desaparecer uma conquista que demorou anos. O caderno permaneceu. Em suas páginas ficaram registrados os nomes, os destinos e os rastros de uma comunidade que precisou se reorganizar.
Como Jacy Must se tornou liderança comunitária em Chico Lessa

Antes de se tornar uma das lideranças de Chico Lessa, Jacy tentava encontrar uma maneira de encerrar um relacionamento de 10 anos. Era mãe de quatro filhos, havia trabalhado como professora e garçonete, em um restaurante de Apipucos, no Recife (PE), mas não sabia se conseguiria seguir sozinha.
Não encontrou o acolhimento de que precisava na família. Com filhos e sem saber onde moraria, separar-se parecia um risco grande demais. Jacy lembra que esse é um impasse vivido por muitas mulheres, especialmente quando não há renda, apoio e um lugar seguro para recomeçar. Foi por meio do então companheiro que ela conheceu Chico Lessa e o Movimento Urbano dos Trabalhadores Sem Teto, o MUST. Ele havia conseguido um lugar na ocupação, localizada do outro lado da área que os moradores chamavam de draga. Meses depois, Jacy foi conhecer o território onde os filhos já costumavam passar parte do tempo.
Quando decidiu encerrar o relacionamento, encontrou ali um espaço onde poderia permanecer com os filhos. Foi essa possibilidade que lhe deu coragem para seguir em frente. Mais tarde, procurou Carlos e Lúcia, coordenadores do MUST, e disse que queria participar mais da vida da ocupação, principalmente do trabalho junto às mulheres. Passou a ser conhecida como Jacy Must, nome que hoje escolhe quando lhe perguntam quem é.
Sua liderança começou a ganhar forma no galpão comunitário. Ela voltou a dar aulas e percebeu que algumas crianças chegavam com fome, sem terem feito a primeira refeição do dia. Começou a pedir doações aos mercados regionais e se aproximou ainda mais das famílias.
A fome das crianças a levou até as casas, e as visitas abriram espaço para outras conversas. Os moradores passaram a procurá-la quando faltava energia, quando uma criança não conseguia vaga na escola ou quando uma família precisava chegar ao posto de saúde ou ao Centro de Referência de Assistência Social, o CRAS. Mulheres que viviam situações de violência também perceberam sua disposição em escutar, acompanhar e buscar proteção.
O apoio que Jacy encontrou quando precisou reconstruir a própria vida passou, aos poucos, a circular por Chico Lessa. Aparecia na comida levada às crianças, na conversa com uma mulher, na busca por uma vaga na escola e na insistência diante de um serviço público. O que um dia a sustentou tornou-se, aos poucos, uma maneira de sustentar outras pessoas.
De Chico Lessa a Márcio Wanderley: a luta por moradia digna continua
Entre as lembranças daquele período, uma das mais presentes é a do galpão comunitário, onde os moradores se reuniam, as crianças brincavam e Jacy dava aulas. Foi nesse período que a trajetória de Jacy também cruzou o caminho da TETO, durante uma construção realizada em 2023. Naquele momento, ela já era uma das lideranças da ocupação e acompanhava de perto as necessidades das famílias.
Em 2024, após um acordo entre o MUST, o poder público e os proprietários da área, as famílias deixaram Chico Lessa. Enquanto organizava a saída da comunidade, Jacy anotava o destino de cada morador. Ao mesmo tempo, via a própria casa ser derrubada.
Parte das famílias seguiu para a ocupação Márcio Wanderley, no Sítio dos Pintos (Recife/PE), levando madeiras, telhas e outros materiais para reconstruir os barracos. Jacy também precisou reiniciar a vida ali. Como estava envolvida na organização da mudança, não conseguiu erguer imediatamente a própria casa e precisou alugar um imóvel onde pudesse permanecer com os filhos. Ainda assim, continuou acompanhando o cotidiano da comunidade ao lado de outras lideranças.
Foi nesse novo território que os caminhos de Jacy e da TETO voltaram a se encontrar. Depois que as chuvas atingiram Márcio Wanderley, a organização retornou para construir moradias emergenciais em diálogo com a comunidade e suas lideranças.
Para Jacy, moradia digna é poder dormir em segurança, criar os filhos e viver com a certeza de que aquele lugar continuará existindo. Por isso, seu sonho permanece o mesmo: uma comunidade onde ninguém passe fome, onde haja acesso à água, à energia e onde cada família possa conquistar uma casa definitiva.
O caderno de Chico Lessa permanece com ela. Em suas páginas estão registrados os nomes e os caminhos das famílias depois da desocupação. Mais do que registrar uma mudança de endereço, ele preserva a memória de uma comunidade — e da liderança que continuou acompanhando seus caminhos mesmo depois da desocupação.
Jacy registrou os caminhos de uma comunidade. Com a sua doação, mais famílias podem escrever novas histórias de vida. Apoie a TETO e faça parte dessa transformação!
* Redatora do blog da TETO Brasil


