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Dia Internacional dos Povos Indígenas e os territórios que guardam histórias e constroem futuros 

  • domingo, 09 de agosto de 2026

Famíllia indígena em aldeia de São Paulo (SP) com gramado e árvores ao fundo

*Por Aline Khouri e Melina Cattoni

Celebrado em 9 de agosto, o Dia Internacional dos Povos Indígenas convida a olhar para uma palavra que costuma aparecer cercada de mapas, limites e disputas: território. Na Tekoa Pyau, aldeia Guarani Mbya situada na Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo (SP), talvez seja possível começar por outra escala. O que precisa existir ao redor de uma casa para que uma família consiga viver, criar seus filhos e manter as relações que dão sentido àquele lugar?

O que território significa para os povos indígenas?

A pergunta ganha força pela própria localização da aldeia. A Tekoa Pyau está entre a Rodovia dos Bandeirantes e a Estrada Turística do Jaraguá, e uma em cada três moradias fica a menos de 50 metros de uma rodovia ou estrada. A cidade se anuncia pelo movimento dos carros, pelo barulho e pela pressão da ocupação do entorno. Ao mesmo tempo, quase todas as casas são de madeira, um terço possui piso de terra e parte das famílias ainda convive com dificuldades de acesso à água e ao saneamento. A metrópole chega muito perto sem necessariamente trazer consigo toda a infraestrutura que concentra.

Os dados fazem parte do Panorama das Favelas e Comunidades Invisibilizadas do Estado de São Paulo, estudo produzido pela TETO em parceria com o Insper a partir de levantamentos realizados em diferentes comunidades, entre elas a Tekoa Pyau. Mas a aldeia também se organiza pela língua, pelos parentes, pela mata, pelos cultivos, pelos cantos, pelos conhecimentos transmitidos entre gerações e pelas decisões tomadas coletivamente. É nesse ponto que a ideia de território ultrapassa a área desenhada em um mapa e se aproxima da experiência cotidiana de quem vive ali.

Entre os Guarani Mbya, a palavra tekoa ajuda a compreender essa relação. O termo está ligado às condições que possibilitam viver segundo o modo de ser guarani, reunindo dimensões ambientais, sociais e culturais. A casa, nessa perspectiva, faz parte de algo que começa antes de suas paredes. E uma aldeia não termina em si mesma: os diferentes tekoa se conectam dentro de uma extensão mais ampla conhecida como Yvyrupa, expressão traduzida como “suporte terrestre”.

O Mapa Guarani Digital apresenta uma rede hoje atravessada por cidades e fronteiras municipais, estaduais e nacionais, enquanto as relações entre aldeias continuam estabelecendo ligações para além dessas divisões. Por essas redes, circulam pessoas, materiais, sementes e mudas, que ajudam a manter práticas mesmo em lugares onde determinados recursos naturais já não estão disponíveis. Remédios, artesanatos, cantos e conhecimentos também acompanham esses deslocamentos.

Essa relação com o território assume diferentes formas entre os povos indígenas. Para Larissa Tukano, articuladora da Rede Katahirine — Rede Audiovisual das Mulheres Indígenas — ela também está ligada às narrativas de origem e aos conhecimentos transmitidos entre gerações.

“Nas nossas narrativas indígenas, cada casa sagrada veio com a Cobra-Canoa e foi recebendo nossos conhecimentos e costumes. O território não é apenas uma terra, uma serra ou um rio. São pontos históricos, casas sagradas.”

Na cosmologia de povos Tukano do Alto Rio Negro, região do noroeste da Amazônia brasileira, a chamada Cobra-Canoa ou Canoa de Transformação está associada à trajetória dos ancestrais e a lugares conhecidos como Casas de Transformação. Segundo a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), durante essa viagem, os ancestrais passavam por diferentes lugares, onde realizavam cerimônias e adquiriam conhecimentos e elementos culturais antes de chegar aos territórios onde viveriam.

A narrativa ajuda a revelar uma dimensão do território que não aparece em um mapa:  entre lugares, memória, conhecimento e continuidade da vida. No Alto Rio Negro, diferentes lugares da paisagem estão associados às narrativas de origem e são reconhecidos como lugares sagrados pelos povos Tukano.

Para Larissa, esse conhecimento também se transmite por meio de uma educação baseada no respeito. Ela conta que, desde a infância, as pessoas são ensinadas a pedir licença para realizar atividades no território e a respeitar os mais velhos e os espaços de outras famílias. “É uma questão de educação respeitar e pedir licença. O território faz parte da nossa vida”, afirma.

Criança indígena está sentada dentro de carrinho conduzido por voluntária da TETO

Há algo importante nessa forma de enxergar o espaço. Uma estrada pode separar dois pontos no mapa enquanto relações de parentesco continuam aproximando quem vive neles. Uma fronteira administrativa determina onde termina um município, mas vínculos, conhecimentos, práticas culturais e trocas seguem outra lógica. O lugar onde se vive permanece conectado a outros lugares que participam da mesma história.

Essa perspectiva também ajuda a compreender uma ideia própria dos Mbya Guarani: o Teko Porã, frequentemente traduzido como “bem viver”. O conceito reúne dimensões da vida que costumam aparecer separadas, como saúde, relações coletivas, espiritualidade e o meio ambiente.

Isso significa ter uma casa segura, água, condições de cultivo, encontrar parentes, transmitir a língua e outras tradições e manter relacionamentos com outras aldeias. Quando a terra disponível diminui ou sofre pressão, seus efeitos alcançam também essas condições do bem viver.

Território indígena e direito à terra: quando a disputa chega à vida cotidiana 

No Jaraguá, em São Paulo (SP), essa relação entre terra e continuidade aparece há anos nas mobilizações Guarani. Em 2017, durante a reação a uma tentativa de reduzir a Terra Indígena Jaraguá, a Comissão Guarani Yvyrupa resumiu parte do que estava ameaçado em uma frase curta: “sem espaço para plantar, sem mata para aprender”. Plantar e aprender aparecem lado a lado porque a terra participa tanto da subsistência quanto da transmissão de conhecimento.

Indígenas de aldeia em São Paulo seguram pratos de comida em estação de alimentação

A discussão ganha uma camada especialmente atual neste 9 de agosto. Recursos relacionados ao marco temporal e ações que questionam a Lei nº 14.701/2023 têm análise prevista pelo Supremo Tribunal Federal entre 7 e 18 de agosto de 2026. Em nota publicada no início do mês, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) relacionou os direitos territoriais à transmissão de línguas e conhecimentos, à segurança alimentar, à espiritualidade, à autonomia e às futuras gerações.

Questões relacionadas ao reconhecimento da terra interferem no acesso a serviços, nas condições encontradas pelas famílias e na possibilidade de organizar a vida naquele espaço.

Moradia indígena e saneamento: quando a cidade chega antes da infraestrutura 

Voluntários da TETO se reúnem em aldeia  indígena localizada em São Paulo (SP)

O Censo Demográfico 2022 mostrou que mais da metade da população indígena brasileira vivia em áreas urbanas. Das cerca de 1,69 milhão de pessoas indígenas contabilizadas no país, 914.746, ou 53,97%, estavam nesses locais. O número ajuda a desfazer a associação automática entre povos indígenas e lugares distantes das cidades e permite enxergar experiências como a da Tekoa Pyau por outro ângulo.

A aldeia está dentro da maior metrópole do país e é cercada por elementos característicos de uma grande cidade. Ainda assim, estar próximo da infraestrutura não significa acessá-la nas mesmas condições.

Na Tekoa Pyau, apenas uma em cada cinco famílias tinha água dentro de casa. Uma em cada 10 não dispunha de água potável para beber e cozinhar, enquanto 30% das moradias não possuíam vaso sanitário. Os números fazem parte do levantamento realizado na aldeia e dividem a mesma paisagem das rodovias que passam a poucos metros dali.

Vistos em uma planilha, esses percentuais ocupam poucas linhas. Dentro de casa, aparecem de maneira recorrente ao longo do dia. A importância da água se torna ainda mais evidente quando é necessário saciar a sede, preparar uma refeição, lavar as mãos, tomar banho, limpar um utensílio ou cuidar de uma criança. Um banheiro é sinônimo de saúde e higiene. .

No recorte adotado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para essa análise, que desconsidera habitações indígenas sem paredes ou malocas, 69,1% das pessoas indígenas em domicílios particulares permanentes conviviam com ao menos uma situação de precariedade ou ausência relacionada ao abastecimento de água, ao esgotamento sanitário ou à destinação do lixo. Entre moradores indígenas em Terras Indígenas, a proporção chegava a 95,6%.

Na Tekoa Itakupe, também na Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo (SP), Mateus Vidal conhece essa relação pela experiência de quem vive ali. Morador da aldeia, ele relatava, em 2023, as dificuldades enfrentadas pelas famílias enquanto o reconhecimento territorial permanecia em disputa. “Não há como ter saneamento básico porque os órgãos públicos alegam que a terra indígena não é demarcada”, contou.

Havia outro problema. Com o aumento do número de moradores e a escassez de casas, as famílias passaram a dividir o mesmo espaço e, em alguns casos, a recorrer à cozinha comunitária e até à Opy’i, a casa de reza. No Jaraguá, em São Paulo (SP), a pressão sobre a terra alcança também a maneira como se mora sobre ela.

Enquanto essas reivindicações seguem, a vida coletiva também pulsa. Na Tekoa Pyau, grupos musicais, coletivos de fotografia e jornalismo e iniciativas ligadas à arte, à língua e à organização comunitária mantêm conhecimentos e histórias em circulação. 

Moradia e território indígena: quando a falta de infraestrutura também é uma questão de direitos  

Em uma aldeia indígena, uma solução para a moradia ou o saneamento não parte apenas das características físicas do espaço. Ela também precisa considerar as necessidades identificadas pelas famílias, suas demandas e a forma como a comunidade se organiza. A experiência na Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo (SP), mostra como aldeias geograficamente próximas podem chegar a soluções diferentes. 

Na Tekoa Itakupe, em São Paulo (SP), a precariedade habitacional e a falta de saneamento levaram à construção de 15 moradias emergenciais e cinco banheiros com biodigestores. O sistema permite tratar os resíduos no próprio local e ajuda a reduzir riscos associados ao descarte inadequado do esgoto.

Poucos quilômetros adiante, a Tekoa Pindo Mirim, também apresentou outro desenho. Em abril de 2024, um projeto reuniu moradores e voluntariado em torno da construção de cinco banheiros comunitários, em parceria com a Softys e a Biosaneamento. 

Essa diferença talvez diga mais sobre a ideia de território do que a repetição de um mesmo modelo. Em cada aldeia, a moradia se relaciona com aquilo que existe ao redor: a fonte de água, o destino do esgoto, as características do solo, o regime de chuvas e as formas como a comunidade organiza a vida. Por isso, pensar em moradia e saneamento é também olhar para seu entorno, onde essas estruturas ganham sentido. 

Povos indígenas e mudanças climáticas: os desafios para permanecer no território 

Em outros pontos do país, eventos climáticos extremos tornaram essa relação ainda mais visível. Em 2025, a TETO construiu moradias emergenciais na Aldeia Charrua Polidoro, na zona sul de Porto Alegre (RS), para famílias afetadas pelas chuvas e enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul.

A experiência acrescenta uma pergunta àquela feita no início do texto: o que possibilita a permanência em um local invadido por uma enchente? Em comunidades que já convivem com infraestrutura insuficiente, responder a esses impactos exige enfrentar vulnerabilidades que começaram antes da chuva.

Menino indígena sobe em árvore em aldeia em São Paulo

É nesse encontro entre moradia e território que a crise climática também aparece. Uma casa precisa responder às características do lugar onde está, mas também às transformações que esse lugar atravessa. Quando a chuva muda de intensidade, o calor se torna mais frequente ou a água passa a alcançar espaços antes protegidos, as condições de permanecer naquele território também se transformam. 

Essa discussão esteve presente no I Fórum Brasileiro de Moradia e Clima, realizado pela TETO e pelo Fundo FICA no Memorial Darcy Ribeiro, em Brasília (DF). O encontro reuniu representantes do poder público, organizações, pesquisadores e lideranças de diferentes territórios para discutir como a vulnerabilidade habitacional interfere na capacidade de enfrentar os efeitos da crise climática.

Voltar à Tekoa Pyau, depois desse percurso, muda a pergunta que abriu esta matéria. Já não se trata apenas de saber onde começa ou termina uma aldeia, mas de entender tudo o que precisa permanecer vivo para que uma comunidade possa continuar existindo naquele território.

Entre os Guarani Mbya, território não é apenas o espaço ocupado por uma casa. É onde circulam parentes, histórias, conhecimentos, práticas, memórias e relações que atravessam gerações. É também onde se constroem as condições para que esse modo de vida possa continuar.

Neste Dia Internacional dos Povos Indígenas, olhar para a moradia a partir dessa perspectiva amplia o que entendemos por casa. Uma construção pode proteger uma família, mas é a rede de relações ao seu redor que transforma aquele espaço em lugar de vida.

Talvez seja justamente por isso que uma casa consiga dizer tanto sobre território. Porque, antes de ser uma construção, é parte das condições que permitem a uma comunidade permanecer, cuidar de seus conhecimentos e construir seu futuro.

Apoie a TETO para construir, junto a povos indígenas, moradias e soluções de saneamento que respondam às necessidades de cada comunidade e às características de seu território!

* Editora e redatora do blog da TETO Brasil

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