*Por Melina Cattoni
“Qualquer chuvinha de 20 minutos alaga tudo e acaba com nossos sonhos.”
A frase foi dita por Edith Vieira, liderança comunitária da City, em São Paulo (SP), durante uma das mesas do I Fórum Brasileiro de Moradia e Clima. Embora tenha surgido em meio a uma discussão sobre infraestrutura urbana, ela sintetiza uma experiência compartilhada por milhões de brasileiros que convivem diariamente com a precariedade habitacional e os impactos cada vez mais frequentes dos eventos climáticos extremos.
Quando a chuva entra em casa, a crise climática deixa de ser percebida apenas por meio de estatísticas, projeções ou conferências internacionais. Ela passa a fazer parte da rotina.
Foi para discutir essa realidade que representantes do poder público, universidades, movimentos sociais, organismos internacionais e organizações da sociedade civil se reuniram em Brasília para o I Fórum Brasileiro de Moradia e Clima, realizado pela TETO Brasil e pelo Fundo FICA.
Temas como habitação emergencial, locação social, melhorias habitacionais, população em situação de rua e justiça climática ocuparam o centro das conversas. À primeira vista, tratava-se de uma agenda ampla. Mas, conforme as mesas avançavam, ficava evidente que todas elas se aproximavam de uma mesma questão: qual é o papel da moradia em um contexto de crise climática?
Segundo o Panorama das Favelas e Comunidades Invisibilizadas, apresentado pela TETO Brasil durante o encontro, 86% das famílias entrevistadas em 119 comunidades relataram ter enfrentado eventos climáticos extremos nos últimos dois anos. O dado ajuda a dimensionar um fenômeno que atravessou boa parte dos temas debatidos no Fórum: os impactos da crise climática não se distribuem de maneira uniforme. Eles encontram cidades marcadas por desigualdades históricas e atingem com mais intensidade justamente os territórios onde o acesso a direitos já era frágil antes mesmo da emergência.
Se os eventos climáticos se tornaram mais frequentes, por que algumas pessoas conseguem atravessá-los com relativa segurança enquanto outras convivem com perdas recorrentes?
Como a desigualdade aumenta os impactos da crise climática
Uma das principais ideias nas discussões realizadas em Brasília foi a de que a intensidade da chuva, da seca ou das ondas de calor explica apenas uma parte do problema. A outra está relacionada à forma como as cidades distribuem infraestrutura, acesso a direitos e condições de proteção.
Uma tempestade pode atingir bairros diferentes, mas seus efeitos raramente serão os mesmos.
Enquanto algumas famílias conseguem retomar a rotina poucas horas depois, outras passam dias tentando recuperar móveis, organizar documentos ou encontrar um lugar seguro para permanecer. Em muitos casos, os prejuízos ultrapassam as perdas materiais e passam a afetar a saúde, a renda e a estabilidade de toda a família.
Essa diferença atravessou diversas mesas do encontro. Em vez de observar os eventos climáticos apenas como fenômenos naturais, os participantes procuraram compreender como eles se relacionam com processos históricos de ocupação urbana, acesso desigual à infraestrutura e ausência de investimentos em determinados territórios.
Nesse cenário, conceitos como justiça climática e racismo ambiental passaram a ocupar um lugar central nos debates. Ao discutir quem são as populações mais expostas aos efeitos da emergência climática, pesquisadores, lideranças comunitárias e organizações sociais chamaram atenção para a concentração desses impactos em áreas historicamente ocupadas por populações negras, periféricas e de baixa renda.
À medida que o evento avançava, a vulnerabilidade deixava de ser apresentada como uma característica inerente a determinados lugares e passava a ser entendida como resultado de escolhas urbanas acumuladas ao longo do tempo. Uma ideia reapareceu em diferentes mesas: territórios não nascem vulneráveis. Essa característica é produzida por processos históricos de exclusão e pela ausência de infraestrutura, saneamento, equipamentos públicos e investimentos capazes de reduzir desigualdades.
Essa mudança de perspectiva desloca também a discussão sobre adaptação climática. Se a vulnerabilidade é produzida socialmente, sua redução não depende apenas da resposta a emergências. Ela passa pela capacidade de transformar as condições que tornam determinadas populações mais expostas do que outras.
Foi a partir dessa reflexão que temas como locação social, Housing First (Moradia Primeiro, abordagem que defende o acesso à moradia segura como ponto de partida para a reorganização da vida de uma pessoa), assistência técnica e melhorias habitacionais começaram a convergir. Embora tratassem de estratégias diferentes, todos tinham uma preocupação em comum: ampliar a capacidade de resposta das pessoas diante de um cenário de eventos climáticos cada vez mais frequentes.
Moradia como ponto de partida para reconstruir vidas
Ao discutir os impactos da crise climática, é comum que a atenção se volte para aquilo que falta: infraestrutura, saneamento, drenagem ou acesso a serviços públicos. Algumas iniciativas apresentadas durante o fórum procuraram inverter essa lógica. Em vez de partir das ausências, surgiu outra pergunta: o que acontece quando as condições de moradia mudam?
A questão apareceu em debates sobre locação social, reabilitação de imóveis vazios, programas inspirados na abordagem Housing First e diferentes iniciativas voltadas à ampliação do acesso à habitação. Ficou evidente que a habitação influencia uma série de dimensões da vida que costumam ser discutidas separadamente.
O relato de Zulema Calizaia Choque ajuda a traduzir essa discussão para a vida cotidiana. Costureira e imigrante boliviana, ela compartilhou um pouco de sua trajetória em um programa de locação social apoiado pelo Fundo FICA. Ao descrever as transformações provocadas pelo acesso a uma moradia digna, resumiu em poucas palavras uma discussão que atravessava diferentes mesas do encontro:
“Agora posso ficar doente, pois sei que tenho um teto seguro. Meus filhos agora têm um futuro.”
O relato ganha ainda mais significado quando contextualizado por sua trajetória. Antes de acessar a locação social, Zulema tinha jornadas de trabalho que chegavam a 18 horas por dia para conseguir arcar com aluguéis abusivos. Seu depoimento sugere uma compreensão de segurança habitacional que ultrapassa a dimensão física da moradia. O que está em jogo é a possibilidade de planejar, construir estabilidade e enfrentar situações adversas sem que cada dificuldade coloque toda a vida em suspensão.
Quando a moradia deixa de ser uma preocupação permanente, há espaço para pensar em outras questões. O acesso à saúde, a busca por trabalho, a permanência na escola e a reconstrução de vínculos comunitários deixam de competir diariamente com a urgência de garantir um lugar para morar.
Como as condições de moradia afetam a saúde e o clima
Se parte das discussões abordou como a moradia influencia a relação das pessoas com a cidade, outras voltaram o olhar para dentro das próprias casas. A mudança de escala não diminuiu a complexidade do problema. Pelo contrário: ajudou a revelar como os impactos da crise climática podem se manifestar de maneiras menos visíveis, mas igualmente profundas.
Entre os temas menos visíveis mencionados durante o encontro estavam situações que raramente ocupam espaço nas discussões sobre adaptação climática. Umidade excessiva, ventilação inadequada, temperaturas extremas e problemas estruturais costumam ser tratados como desafios habitacionais. No entanto, seus efeitos ultrapassam os limites da construção e alcançam diretamente a saúde das famílias.
Essa relação aparece de forma concreta em um relato compartilhado pela arquiteta Carol Almeida durante uma dte tratadas de forma isolada fazem parte de uma mesma realidade.
Por essa razão, assistência técnica para habitação de interesse social e melhorias habitacionais permaneceram no centro das discussões. Nesse ponto, a discussão sobre adaptação climática já não se limitava às cidades vistas de cima. Ela alcançava os espaços onde a vida acontece: as casas, as ruas e os territórios.
Os caminhos apontados pelo I Fórum Brasileiro de Moradia e Clima
As recomendações apresentadas ao término do encontro apontam caminhos concretos para o fortalecimento das políticas habitacionais e de adaptação climática. Entre elas, estavam o incentivo à assistência técnica para habitação de interesse social, o fortalecimento de modalidades como a locação social e contribuições para debates que devem ganhar relevância nos próximos anos, especialmente com a realização da COP30 em Belém (PA).
Ao reunir pesquisadores, gestores públicos, organismos internacionais, movimentos sociais e lideranças comunitárias, o encontro criou um espaço raro de diálogo sobre moradia e questões relacionadas à saúde, à permanência nos territórios, à redução de riscos, ao acesso a direitos e ao planejamento urbano, revelando conexões que nem sempre aparecer.
Talvez por isso a fala de Edith Vieira tenha ecoado em diferentes momentos daquele dia. Quando uma chuva de poucos minutos é capaz de interromper rotinas, destruir pertences e colocar vidas em risco, a crise climática deixa de habitar apenas relatórios, projeções e conferências internacionais. Ela se revela nas condições concretas em que as pessoas vivem e nas desigualdades que determinam quem estará mais protegido quando a próxima emergência chegar.
Nesse contexto, a moradia deixa de ocupar um papel periférico e passa a ser entendida como parte das respostas à crise climática. Para milhões de brasileiros, a capacidade de enfrentar os desafios do clima continua começando por algo fundamental: um lugar seguro para viver.
Esta reportagem é um recorte de um debate que está longe de terminar. As mesas completas do I Fórum Brasileiro de Moradia e Clima estão disponíveis no canal da TETO Brasil no YouTube. Veja e reveja!
*É redatora do Blog da TETO Brasil.


