Por Itamar Batista
Todo ano, entre 1 e 5 de junho, a Semana do Meio Ambiente coloca em pauta temas como desmatamento, biodiversidade, poluição e metas de emissão de carbono. Entre todos esses assuntos, um deles se destaca nos últimos anos: a crise climática. Diferente de outros problemas ambientais, ela já cobra seu preço agora, de forma concreta e desigual, impactando de forma mais severa aqueles que têm menos recursos para se proteger e menos infraestrutura para resistir.
No Brasil, mais de 16,4 milhões de pessoas vivem em favelas e comunidades urbanas, segundo o Censo 2022 do IBGE. São os mesmos territórios que concentram moradia precária, ausência de infraestrutura e maior exposição a enchentes, deslizamentos e ondas de calor. Quando se fala em meio ambiente e crise climática sem ouvir e pensar nessas populações, o diálogo fica incompleto.
O que os dados mostram
O Panorama Climático das Favelas e Comunidades Invisibilizadas, lançado pela TETO Brasil em parceria com o Centro de Estudos das Cidades do Insper em 2025, ouviu moradores e moradoras de 119 territórios em 51 municípios de todas as regiões do país. Os resultados mostram que 86% das comunidades enfrentaram ao menos um evento climático extremo no último ano. Enchente, deslizamento, onda de calor, seca. Frequentemente mais de um, no mesmo lugar, no mesmo período.
Esses territórios, em grande parte, não contam com sistemas de alerta, planos de contingência ou acesso a políticas públicas de adaptação. Quando o evento climático chega, as famílias o enfrentam sozinhas. Quando a água baixa, recomeçam sob o mesmo risco.
O 6° Relatório de Avaliação do Painel Intragovernamental Sobre Mudanças Climáticas da ONU traz um dado que contextualiza essa realidade em escala global: entre 2010 e 2020, a mortalidade por secas, enchentes e tempestades foi 15 vezes maior nas regiões mais vulneráveis do que nas menos vulneráveis. Não se trata de fatalidade geográfica, mas do resultado direto da ausência de infraestrutura, moradia adequada e políticas de proteção.
O calor extremo é outro exemplo. Estudos do Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA) identificaram diferenças de até 15°C entre favelas e bairros vizinhos em São Paulo. Paraisópolis e Heliópolis podem registrar 44°C e 45°C na superfície enquanto o Morumbi marca em torno de 30°C. A combinação de alta densidade construtiva, pouca arborização, impermeabilização do solo e ausência de ventilação transforma esses territórios em ilhas de calor permanentes, com impactos diretos na saúde da população. Pesquisa da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP publicada na revista Urban Climate confirma a correlação de que as regiões com maior vulnerabilidade social na cidade são as mais expostas ao risco de calor extremo.
Nas chuvas, o padrão se repete. O Rio Grande do Sul ainda contabiliza as consequências de maio de 2024, quando as enchentes resultaram em 184 mortes, afetaram mais de 2,3 milhões de pessoas e causaram impacto econômico estimado em R$ 88,9 bilhões, segundo relatório do BID, da CEPAL e do Banco Mundial. De 2013 a maio de 2024, 2,6 milhões de moradias foram danificadas ou destruídas por desastres no Brasil, afetando mais de 5 milhões de pessoas, segundo a Habitat para a Humanidade Brasil.
A dimensão racial da Crise Climática
Segundo o Censo 2022 do IBGE, 73% da população que vive em favelas e comunidades urbanas se declara negra. Em 2022, quando chuvas atingiram a região metropolitana do Recife e mataram 140 pessoas, 84% dos territórios afetados tinham população majoritariamente negra e de baixa renda, segundo levantamento da Habitat para a Humanidade Brasil. A concentração dos piores impactos ambientais sobre populações negras e periféricas tem nome: racismo ambiental. É um elemento que não pode ser separado de qualquer debate sobre meio ambiente e mudanças climáticas no país.
Moradia como estratégia de adaptação climática
O Brasil tem um déficit habitacional de 5,77 milhões de moradias, segundo a Fundação João Pinheiro em parceria com o Ministério das Cidades (2024). Mais de 74% desse déficit se concentra em famílias com renda de até dois salários mínimos. É esta parcela da população que vive nas encostas, nas margens de córregos e nas áreas sem drenagem.
É com essa perspectiva em vista que a TETO Brasil tem construído sua atuação em resiliência climática nos últimos anos. O projeto Moradia Resiliente, vencedor do Smart City Expo World Congress 2025 em Barcelona na categoria Living & Inclusion, incorpora técnicas construtivas adaptadas ao clima: ventilação cruzada, isolamento térmico e materiais sustentáveis. Na COP30, em Belém, a organização participou dos debates sobre habitação como estratégia de adaptação climática. Junto com WRI Brasil, ONU-Habitat, Habitat para a Humanidade Brasil e Fundação Tide Setúbal, a TETO assinou a Carta Aberta pela Moradia Digna na Agenda Climática, pela integração das duas pautas nas políticas públicas brasileiras.
O próximo passo: 11 de junho, em Brasília
O 1° Fórum Brasileiro de Moradia e Clima acontece no dia 11 de junho de 2026, a partir das 8h, no Memorial Darcy Ribeiro, em Brasília. Organizado pela TETO Brasil e pelo Fundo FICA, o evento reúne poder público, sociedade civil, academia, setor privado e, sobretudo, representantes de comunidades afetadas pelos impactos climáticos para debater no mesmo espaço. O Fórum parte do reconhecimento de que moradores de favelas e periferias são detentores de conhecimento empírico sobre como cada evento climático interfere, prejudica e ameaça a vida nos territórios.
O evento é a evolução do Seminário de Moradia e Clima realizado em 2025, em São Paulo, que confirmou a urgência do tema e a demanda por um espaço nacional e permanente de discussão. A partir dos debates de junho, será elaborado um documento de incidência política com evidências, experiências de território e recomendações concretas, entregue a candidaturas presidenciais, partidos e instituições federais. A proposta é conquistar compromissos públicos que posicionem as políticas de moradia como pilar da resposta climática brasileira, num momento em que as prioridades do próximo governo ainda estão sendo construídas.
Esperar a próxima tragédia para colocar a habitação no noticiário é colocar vidas em risco. Esta Semana do Meio Ambiente é mais uma oportunidade de afirmar que moradia digna e proteção climática são a mesma causa.


