*Melina Cattoni
Dezoito relatos de moradores de comunidades em situação de vulnerabilidade ajudam a entender o que muda nos dias de chuva depois da construção de uma moradia da TETO Brasil. Ao comparar a casa atual com aquela em que viviam antes, eles se lembram de goteiras, alagamentos, frestas e noites em estado de alerta. Hoje, descrevem o chão seco, uma estrutura mais segura e uma preocupação que perdeu espaço. “A chuva não invade mais a casa”, conta um dos moradores.
Em 17 casos, chover deixou de significar um problema dentro de casa. Há quem se lembre de um telhado quase inexistente, quem cite as muitas frestas e quem recorde o vendaval fazendo a antiga estrutura balançar. Em algumas experiências, o alagamento vinha acompanhado do medo de a casa cair.
“Não dormia porque molhava e alagava tudo”, conta uma das pessoas ouvidas. A frase mostra que a água não terminava no piso ou no telhado. Ela alcançava o descanso e a sensação de segurança. Na moradia atual, as respostas ficam mais simples: “Agora a casa é estanque.” “Não chove dentro de casa.” “Não fico mais preocupada na chuva”, observa outra entrevistada.
O trabalho invisível de se proteger da chuva
Há um trabalho invisível em tentar manter seco um lugar que não consegue barrar a água. É preciso observar o telhado, mudar objetos, proteger colchões e documentos, posicionar recipientes sob as goteiras e acompanhar o nível do alagamento. Quando o vento ameaça a construção, cada barulho pede atenção. A previsão do tempo passa a interferir também na organização da casa.
A goteira parece um problema localizado, embora raramente acabe onde a água cai. Um alagamento desorganiza o espaço destinado ao descanso e à convivência, enquanto o vendaval acrescenta o medo de perder a própria estrutura. É nesse acúmulo que ganha peso uma resposta aparentemente simples: “Tinha pingueira e agora não tem mais.”
Uma das famílias relaciona a diferença ao fato de a nova moradia estar elevada em relação ao terreno. A percepção encontra uma explicação no modelo de moradia emergencial da TETO, apoiado sobre estacas de madeira. Essa característica reduz o contato do piso com a umidade e pode dificultar a entrada de água, conforme as condições do local.
Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas em parceria com a TETO, realizada durante a pandemia de Covid-19, contribui para colocar essa mudança em perspectiva. O estudo reuniu 524 entrevistas quantitativas em 31 comunidades e ouviu 56 lideranças comunitárias em seis estados. Entre as famílias que receberam moradias de emergência, a análise encontrou melhores indicadores relacionados à preocupação, ao estresse e à solidão, além de efeitos positivos nas relações de confiança. Nos relatos desta matéria, essa relação aparece na preocupação que perde espaço quando a chuva deixa de exigir atenção dentro de casa.
Da moradia à infraestrutura do território
Uma das 18 respostas mostra que uma moradia mais segura ainda convive com limites impostos pelo entorno. O morador conta que as goteiras acabaram e a construção deixou de balançar com o vendaval, mas, quando a chuva vem acompanhada de vento, ainda entra água por baixo de um dos painéis. O relato reúne duas coisas importantes: a melhora dentro de casa e aquilo que continua dependendo das condições do terreno e da infraestrutura ao redor.
Uma casa pode manter a chuva do lado de fora e ainda estar em uma rua que alaga, diante de um acesso interrompido ou em uma área onde a água não encontra vazão. Drenagem, saneamento, contenção de encostas e urbanização interferem diretamente nesse percurso. A segurança conquistada dentro de uma residência depende de condições que também precisam existir do lado de fora.
O Panorama Climático das Favelas e Comunidades Invisibilizadas, estudo conduzido pela TETO Brasil, ajuda a dimensionar o tamanho desse problema. A pesquisa reuniu dados e vozes de 119 territórios em 51 municípios. Entre as comunidades participantes, 86% haviam enfrentado pelo menos um evento climático extremo no ano anterior. Em 70% delas, não havia abrigo emergencial nem obras de drenagem, enquanto 60% relataram ausência de obras de contenção.
O mesmo temporal que encontra uma casa mais protegida pode causar problemas no território. Um telhado sem goteiras muda a experiência de uma família diante da chuva, mas não impede que a água se acumule na rua, interrompa caminhos ou alcance outras moradias. São problemas de escalas diferentes, que exigem tanto condições mais seguras para morar quanto infraestrutura capaz de reduzir os riscos que atravessam a comunidade.
Quem vive nesses territórios conhece de perto a forma como esses riscos se distribuem. Os moradores sabem onde há acúmulo de água e que pontos se tornam mais vulneráveis. Esse conhecimento, em conjunto com o planejamento técnico e às políticas públicas, ajuda a construir soluções mais conectadas às condições de cada local.
A moradia emergencial responde a uma necessidade que já existe, enquanto obras de infraestrutura e soluções habitacionais permanentes dependem de investimento público, planejamento e continuidade. Entre uma resposta imediata e mudanças que levam mais tempo, a vida continua e novos episódios de chuva também.
Nos relatos reunidos aqui, a diferença aparece também no alívio de uma rotina doméstica desgastante: a atenção constante ao telhado, ao piso e à proteção dos bens a cada temporal. Do lado de fora, a drenagem, o saneamento, a urbanização e as políticas habitacionais provam que essa mesma segurança também depende da infraestrutura urbana.
Adaptar nossas cidades às mudanças climáticas representa um compromisso inadiável. Conheça os projetos da TETO Brasil e descubra como participar da construção de moradias mais seguras diante dos desafios do clima.
*Redatora do Blog da TETO Brasil


