*Por Melina Cattoni
“Como a TETO chega nas comunidades?”
Esta é uma pergunta comum entre quem acompanha ou já ouviu falar do trabalho da TETO Brasil. Se o propósito da organização é construir uma sociedade justa e sem pobreza, como é o início desse processo? Como decidir onde atuar em um país com tantas comunidades em situação de vulnerabilidade?
A resposta começa com a varredura territorial. Por meio de imagens de satélite, a TETO identifica assentamentos que apresentam sinais de moradias precárias e vulnerabilidade econômica. Essa análise inicial gera um mapa que revela a localização e o tamanho desses territórios.
Embora seja um estudo preliminar baseado na visão aérea, ele é o ponto de partida essencial para que a organização planeje a chegada em novas comunidades.
Quem transforma esses dados em caminhos reais é a equipe de Diagnóstico e Avaliação (DeA). Ela é o primeiro elo entre a comunidade e a TETO, conectando informação técnica e escuta ativa para orientar uma atuação responsável. Na prática, o trabalho começa com essa leitura ampla do território para dar visibilidade a lugares que muitas vezes não aparecem nas estatísticas oficiais, mas são territórios vivos e habitados.
A partir disso, as equipes produzem mapas e sistematizam dados sobre comunidades que muitas vezes aparecem como “vazios” nas estatísticas, mas são territórios vivos e habitados.
Quando uma região é priorizada, entra em cena o Mutirão de Visitas. Voluntários e voluntárias visitam dezenas de comunidades e aplicam um questionário que ajuda a compreender as condições urbanísticas, ambientais, sociais e jurídicas dos territórios. Esses encontros costumam ser o primeiro contato entre a TETO e as comunidades e iniciam uma escuta que orienta todo o processo.
Após a conclusão das visitas, a equipe se debruça sobre o que foi observado em campo para identificar quais comunidades apresentam maior urgência e, ao mesmo tempo, reúnem as condições necessárias para uma atuação consistente.
Essa análise inclui elementos como as condições de moradia, acesso ao saneamento, infraestrutura básica, materiais das casas e também aspectos sociais e jurídicos, como a presença de lideranças, formas de organização comunitária e a estabilidade de permanência no território.
A partir desse momento, a TETO prioriza as comunidades considerando a leitura do território e a capacidade operacional do momento. Em seguida, há uma etapa fundamental: dialogar com as referências comunitárias para verificar se a proposta da organização também faz sentido para a comunidade.
Quando há alinhamento, começa a aproximação, geralmente com uma assembleia de abertura em que a TETO apresenta sua forma de atuação e constrói, juntamente com as pessoas, os próximos passos.
Exemplo em São Paulo: da visita à priorização de comunidades
Foi assim em um mutirão realizado em agosto de 2022 na Região Metropolitana de São Paulo (SP). Naquele dia, 14 voluntários visitaram 12 comunidades, num primeiro contato feito com escuta, respeito e atenção ao território. Com base no que foi observado em campo e nas conversas com referências locais, cinco comunidades foram priorizadas para aprofundar o diálogo com a TETO: Aldeia Tekoa Itakupe, Terra Prometida, Morro do Piolho, Jardim Rosas e Jardim Maravilha.
A Aldeia Tekoa Itakupe foi escolhida para uma ação mais imediata. A combinação entre alta vulnerabilidade e um histórico de relação com a TETO contribuiu para a decisão. Na época, eram cerca de 40 famílias indígenas, o que reforçou um compromisso importante: agir com respeito e valorizar as culturas originárias.
A TETO já havia implementado soluções de moradia em parceria com a comunidade desde 2013. Dados mais recentes, de 2023, indicam 91 domicílios na Tekoa Pyau, sendo que 17 foram construídos no mesmo ano. Um retrato de como esses territórios seguem em transformação e enfrentando pressões constantes.
Já a Terra Prometida foi considerada promissora para um trabalho de médio e longo prazo, especialmente pelo engajamento comunitário e pela organização local. Um dado levantado durante as visitas ajuda a dimensionar o desafio: apesar de muitas comunidades serem antigas, a falta de posse formal segue como uma regra.
Nenhuma das 17.428 famílias consideradas no levantamento possuía documentação registrada em cartório. Ainda assim, a maioria das comunidades contava com lideranças ativas e associações de moradores, sinais potentes de mobilização e capacidade coletiva.
O processo não é encerrado quando uma comunidade é selecionada. A TETO mapeia domicílios, diagnósticos e monitora as capacidades comunitárias, sempre em parceria com moradores e representações locais, com escuta constante e planejamento conjunto.
Para que esse conhecimento não ficasse restrito à organização, a TETO lançou, em 2021, o Mapa de Direitos durante o Cidade em Foco, evento aberto da organização dedicado ao debate sobre o direito à cidade. A plataforma pública reúne dados coletados em campo e torna visíveis violações de direitos em centenas de regiões historicamente invisibilizadas. É uma ferramenta que denuncia, informa e fortalece caminhos para políticas públicas e estratégias de atuação social.
Cada passo em uma nova comunidade começa muito antes da construção de uma moradia. Começa com presença e com a certeza de que nenhuma comunidade é invisível demais para não ter seus direitos reconhecidos. E é a DeA quem ajuda a construir essa primeira ponte entre o direito e a realidade. Conheça mais sobre o trabalho da TETO Brasil.
*Redatora do blog da TETO Brasil.


