*Melina Cattoni
Uma em cada seis pessoas no mundo relata sentir solidão. O número aparece em um relatório publicado em 2025 pela Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ajuda a deslocar a discussão de uma leitura centrada apenas no indivíduo. A forma como nos relacionamos também depende dos espaços que temos para encontrar outras pessoas, criar vínculos e participar da vida coletiva.
Entre as respostas, a OMS aponta o fortalecimento da chamada infraestrutura social: espaços, serviços e iniciativas que favorecem encontros e relações. Em outra escala, também cita atitudes cotidianas capazes de ampliar conexões, como participar de grupos locais e fazer voluntariado. Essas possibilidades aparecem nas orientações da organização sobre conexão social.
Essa discussão ganha um contorno particular no Setembro Amarelo, campanha voltada à conscientização sobre saúde mental e à valorização da vida. Ao ampliar esse debate, o período também abre espaço para olhar para as condições que sustentam o cuidado, entre elas as relações, os vínculos e as oportunidades de participação. É nessa perspectiva que o voluntariado entra na matéria: não como resposta pronta, mas como uma experiência de ação coletiva. O que pode nascer quando pessoas se encontram para agir juntas em torno de uma causa?
O que a ciência já sabe sobre voluntariado e bem-estar
Algumas pesquisas aproximam uma resposta, embora peçam cautela. Uma revisão publicada em 2023 sobre voluntariado e bem-estar reuniu 28 revisões sistemáticas sobre os efeitos do voluntariado na saúde social, mental e física. Os trabalhos analisados encontraram resultados positivos em diferentes dimensões, mas os próprios autores chamam atenção para limitações importantes: a qualidade metodológica das revisões foi, em geral, baixa e boa parte dos estudos envolvia pessoas mais velhas nos Estados Unidos.
Esses limites ajudam a colocar o voluntariado no lugar certo dessa discussão. Ele não substitui tratamento nem produz bem-estar por definição. O que a literatura permite observar é que algumas experiências reúnem elementos relacionados ao bem-estar, como contato social, participação, aprendizado e senso de propósito. Os resultados também variam conforme as motivações de quem participa e a maneira como a atividade é construída.
Na TETO Brasil, um desses elementos aparece já na razão que leva as pessoas a participar. Em uma pesquisa realizada pela própria organização em 2025 com participantes de suas ações, 45% dos entrevistados apontaram a “conexão com a missão” como principal motivação para estar nas atividades da TETO. No mesmo ano, 9.039 pessoas participaram de ações e outras 589 integraram o voluntariado fixo.
Os números ganham outra dimensão no relato de Matheus Ferreira Silva, voluntário da TETO na Bahia. Depois de participar de mais de 15 ações, ele conta que a experiência o colocou em contato com pessoas que dificilmente encontraria fora do voluntariado. Em uma delas, durante o Encontro Nacional de Voluntariado de 2025, conheceu uma liderança indígena e teve contato com histórias e conhecimentos daquela comunidade.
Na TETO, esses encontros acontecem em torno de atividades concretas e reúnem pessoas com histórias, rotinas e formações diferentes para construir junto aos moradores, escutar e trocar experiências. O Relatório de Impacto 2025 relaciona essa participação também a aprendizado, pertencimento e participação cidadã.
Em algumas dessas ações, quem chega ao território já divide outro espaço de convivência: o trabalho.
O que o voluntariado corporativo pode criar entre colegas
Funções, prazos e entregas costumam organizar boa parte da convivência entre colegas. Em uma ação de voluntariado corporativo, essas mesmas pessoas passam a compartilhar também uma causa, uma atividade realizada em conjunto e o contato com realidades que dificilmente fariam parte da rotina profissional.
Na TETO, essa mobilização acontece quando empresas envolvem seus colaboradores em atividades realizadas junto à organização e às comunidades. Em 2025, foram 45 empresas parceiras e 44 atividades de voluntariado corporativo. A relação com o setor privado também inclui financiamento direto de moradias, apoio a projetos de infraestrutura e água, marketing relacionado à causa e parcerias estratégicas, como mostra o Relatório de Impacto 2025.
Quando os colaboradores participam diretamente dessa relação, surge um cuidado próprio do ambiente de trabalho: estar ali precisa continuar sendo uma escolha. Clareza sobre a atividade, preparação e liberdade para decidir participar ajudam a evitar que o voluntariado seja percebido como obrigação ou expectativa da empresa.
Esse cuidado também chega ao território. Uma construção ou ação comunitária parte de uma necessidade identificada junto de quem vive naquele lugar. A comunidade não pode se transformar em cenário para oferecer aos colaboradores uma experiência de propósito. Na própria missão da TETO, a mobilização do voluntariado aparece ligada ao trabalho conjunto com moradores e outros atores para desenvolver soluções de moradia e habitat e fortalecer capacidades comunitárias.
A atividade dos colaboradores pode, então, ser um dos pontos de contato de uma relação mais longa entre empresa e causa. As outras possibilidades de parceria com a TETO permitem que esse envolvimento continue depois do dia da ação, assumindo diferentes formas de apoio ao trabalho desenvolvido nos territórios.
Essa construção também ajuda a colocar a relação com a saúde mental em perspectiva. O voluntariado corporativo não deve carregar a promessa de melhorar o bem-estar de quem participa. As evidências apontam uma relação mais complexa. O que a empresa pode oferecer são condições para que uma experiência coletiva aconteça com escolha, preparo e sentido.
No Setembro Amarelo, essa perspectiva amplia a ideia de cuidado. A discussão trazida pela Comissão sobre Conexão Social da OMS mostra que conexão social é uma questão de saúde pública e que as oportunidades de criar vínculos e participar da vida coletiva também fazem parte dessa conversa.
Conheça as formas de parceria com a TETO Brasil e descubra como sua empresa pode participar de ações construídas junto às comunidades.
*Redatora do Blog da TETO Brasil.

