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Moradia no centro: o que o Fórum Mundial Urbano nos diz sobre urgência, clima e invisibilidade

  • quarta-feira, 03 de junho de 2026

*Por Camila Jordan, Diretora de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil

Este artigo foi originalmente publicado no Observatório do Terceiro Setor.

Baku, no Azerbaijão, recebeu em maio deste ano a 13ª edição do Fórum Mundial Urbano — o maior evento global sobre o futuro das cidades, realizado a cada dois anos pela ONU Habitat. Com mais de 58 mil participantes de 176 países, o WUF 13 foi histórico em tamanho e, para quem trabalha com moradia social no Brasil, também foi histórico em clareza: nunca esteve tão evidente que a crise habitacional global chegou ao seu ponto de ruptura — e que ela afeta, de forma desproporcional e cruel, exatamente quem a sociedade e o poder público mais ignoram.

Estive em Baku representando a TETO Brasil. Foi um privilégio e uma responsabilidade. Como eu sigo repetindo: a moradia precisa estar no centro, ela é a primeira linha de defesa contra os efeitos da crise climática. Essa frase não é retórica. Ela descreve a realidade de milhões de famílias brasileiras que vivem hoje em situação de emergência habitacional.

Um novo centro de gravidade na agenda global

O Plano Estratégico 2026–2029 da ONU Habitat representa uma virada importante: pela primeira vez em muitos anos, a moradia adequada volta a ocupar o centro da agenda urbana global, não como tema adjacente ao desenvolvimento, mas como direito humano fundamental, diretamente ligado à dignidade, à saúde, à segurança e à capacidade de uma família de acessar qualquer outra oportunidade na vida.

O documento saído de Baku, o Baku Call to Action, é resultado de meses de consultas com organizações da sociedade civil, governos locais, movimentos comunitários, pesquisadores e lideranças de todo o mundo, do qual nós também participamos da revisão. Ele reconhece o que quem atua nas favelas já sabe há décadas: a crise habitacional não é acidental. Ela é estrutural, sistêmica e politicamente produzida. Estima-se que 3,4 bilhões de pessoas vivam hoje em condições de moradia inadequadas no mundo. No Brasil, são mais de 17 milhões só nas favelas, comunidades e assentamentos populares.

Esse momentum global importa. Ele cria uma janela de oportunidade para que países como o Brasil acelerem reformas, ampliem investimentos e, talvez o mais difícil, levem o financiamento a quem mais precisa.

Clima e moradia: uma equação que não pode mais ser separada

Um dos eixos mais potentes do WUF 13 foi a articulação entre crise climática e moradia. Não por acaso: as enchentes que devastaram comunidades no Rio Grande do Sul, as chuvas que derrubam encostas em São Paulo, o calor extremo que mata silenciosamente nos bairros sem arborização, tudo isso acontece primeiro, e com muito mais força, em quem vive em moradia precária.

A TETO levou a Baku um estudo inédito, o Panorama Climático, realizado em parceria com o Insper e com apoio institucional da ONU Habitat, que mapeou 119 comunidades em todo o Brasil para entender como os moradores percebem os efeitos da crise climática nos seus territórios e nas suas casas. Os dados são contundentes, e as soluções já existem, muitas desenvolvidas pelas próprias comunidades, à espera de que os governos as adotem com a velocidade que a urgência exige.

Em um dos painéis mais marcantes do fórum, tivemos a oportunidade de reunir nossa experiência latino-americana com a presença de Nigar Arpadarai, a UN Champion do Azerbaijão para a COP 29, para debater exatamente esse desafio: como usar dados hiperlocais e necessidades hiperlocais para influenciar esferas nacionais e federais, onde os recursos precisam ser alocados e distribuídos para chegar até essas comunidades no nível local. É um problema de governança, de vontade política e de financiamento, os três, ao mesmo tempo.

O Baku Call to Action é direto ao ponto: as famílias que vivem em favelas e comunidades são as que mais sofrem com enchentes, calor extremo, deslizamentos e degradação ambiental. E são também as que menos recebem resposta. Quem vive em emergência habitacional está, por definição, na linha de frente de todas as crises, sem proteção, sem dados, sem voz nos espaços onde as decisões são tomadas.

O dinheiro que não chega

O Baku Call to Action dedica um capítulo inteiro a um problema que qualquer pessoa que trabalha com filantropia ou financiamento social no Brasil conhece bem: o dinheiro não chega onde precisa. Os sistemas de financiamento habitacional são fragmentados, desarticulados e inacessíveis para as famílias de menor renda. O investimento público encolhe. O financiamento privado não alcança o território.

No Brasil, esse problema tem uma dimensão ainda mais específica: moradia é, historicamente, uma das causas menos apoiadas pela filantropia nacional. Enquanto saúde, educação e meio ambiente mobilizam doações e investimentos de impacto com relativa facilidade, a emergência habitacional segue sendo tratada como problema do Estado, que, por sua vez, também não resolve. O resultado é uma lacuna enorme, ocupada por organizações como a TETO com recursos insuficientes e demanda crescente.

Não faltam compromissos globais. Falta que esses compromissos se convertam em recursos acessíveis, territorialmente distribuídos e de longo prazo. O call to action de Baku pede explicitamente que bancos de desenvolvimento, setor privado, governos e filantropia construam novos mecanismos de financiamento que cheguem às comunidades, e que a moradia pare de ser tratada como investimento de risco alto e retorno baixo quando, na verdade, ela é a base de tudo.

A emergência que não pode esperar

A TETO atua sobre uma realidade concreta: famílias que vivem hoje em barracos instáveis, sem saneamento, expostas a enchentes e deslizamentos, sem privacidade, sem segurança. A moradia de emergência que construímos não é a solução definitiva — e nunca dissemos que é. Ela é uma ponte entre a violação e a garantia de direitos, entre a urgência e a solução estrutural, entre a invisibilidade e o reconhecimento.

Antes de qualquer intervenção, realizamos validação técnica e jurídica do território. O que fazemos é reduzir riscos imediatos à vida e garantir um patamar mínimo de dignidade, enquanto o poder público e a sociedade organizam respostas de longo prazo. Afirmar que só soluções definitivas importam é ignorar que há famílias cujas vidas estão em risco agora. A emergência não pode esperar. Assim como ninguém espera por uma solução estrutural para se alimentar, ninguém deveria esperar por uma moradia digna.

O que vem a seguir

Saímos de Baku animados. O Fórum Mundial Urbano daqui a dois anos acontecerá no México, no nosso continente. Será a oportunidade de chegar em peso: com nossas equipes, com nossas lideranças comunitárias, com os dados que continuamos produzindo e com a voz de quem sobrevive à crise.

O momentum existe. A agenda global está, finalmente, alinhada ao que as favelas brasileiras gritam há décadas. O que precisamos agora é transformar esse alinhamento em recursos reais, políticas concretas e financiamento que chegue à ponta.

Porque nenhuma família deveria viver em situação de emergência habitacional. E enquanto isso não for verdade, estaremos lá, construindo, moradias.


Leia outros artigos de Camila Jordan no Observatório do Terceiro Setor.

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