*Por Camila Jordan, Diretora de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil
Este artigo foi originalmente publicado no Observatório do Terceiro Setor.
Estamos chegando perto de novas eleições e, apesar de nas próximas eleições escolhermos representantes para cargos que não tratam especificamente dos nossos municípios, deputados, senadores, governadores e o próprio presidente são postos que exercem grande influência sobre as nossas cidades, sobre o planejamento urbano das nossas metrópoles e como os recursos são distribuídos.
Que palavras e expressões estamos acostumados a escutar durante as campanhas eleitorais? Palavras como Brasil, economia, emprego, Deus, desenvolvimento, reforma, corrupção e segurança pública são o feijão com arroz da nossa retórica política. Claro que retórica e narrativa não são tudo, mas sabemos que elas muitas vezes nos desviam da realidade.
Talvez você que me lê queira saber onde eu estou querendo chegar com tudo isso. Por isso, agora pergunto se em alguma eleição recente, você escutou discursos com palavras como favelas, moradia social, integração sócio urbana, adaptação climática, resiliência urbana, entre outras?
Arrisco dizer: poucas vezes — ou nenhuma.
A verdade é que dentro ou fora de época eleitoral existe uma decisão silenciosa sendo tomada todos os dias. Ela não passa por votação, nem por debate público. Ela acontece quando um mapa é desenhado, quando um orçamento é distribuído, quando uma política urbana é formulada e implementada. É a decisão sobre quem entra e quem fica de fora.
É nesse sentido que o silêncio diante dos enormes desafios urbanos do Brasil — um país onde 87% da população vive em áreas urbanas — revela mais do que omissão: ele expõe a ausência de ação concreta e preventiva e a baixa cobrança por respostas efetivas dos governantes, resultando na perpetuação de vulnerabilidades agravadas por décadas de descaso.
No fim, isso também é uma escolha política — feita coletivamente.
Nos últimos anos, o Brasil assistiu a tragédias anunciadas se repetirem: Bahia, Pernambuco, Petrópolis, litoral norte de São Paulo — e, mais recentemente, Minas Gerais, onde o governo estadual reduziu entre 2023 e 2025 96% das verbas para prevenção contra as chuvas. Esses casos têm em comum não apenas a intensidade das águas, mas principalmente a ausência de investimento consistente em prevenção. Áreas de risco já eram conhecidas, obras estavam previstas, recursos existiam. Ainda assim, não foram priorizados. O desastre, nesses casos, não começa com a chuva. Começa muito antes, começa nas decisões de planejamento e orçamento.
Além disso, sabemos que esse impacto é desigual na cidade. Não é a mesma coisa ficar sem luz e a água invadir uma casa ou um prédio numa área formalizada da cidade. A história é bem diferente se você vive na periferia, numa favela consolidada como Heliópolis ou Rocinha, ou numa favela hiper vulnerabilizada onde mais de 40% das pessoas moram (dados da TETO) em barracos improvisados de restos de materiais, completamente suscetíveis a qualquer evento climático.
Dados do IPCC indicam que moradores de periferias enfrentam 15 vezes mais chances de morrer diante de eventos climáticos extremos. No Brasil, essa desigualdade se traduz em impactos desproporcionais sobre quem já vive em condições precárias. Planejar cidades sem as favelas é, na prática, escolher quem pode existir.
Nesse contexto, iniciativas como o programa Periferia Viva, do Novo PAC, representam um avanço importante ao reconhecer a centralidade desses territórios. O programa prevê cerca de R$4,67 bilhões para a urbanização de 49 favelas em 32 municípios, com ações que incluem saneamento, contenção de encostas, habitação e regularização fundiária. Mas, diante da escala do desafio habitacional brasileiro, esse volume ainda está longe do necessário. Especialistas do BID apontam que países latinoamericanos deveriam investir de forma contínua algo entre 4% e 5% do PIB ao ano, por pelo menos 15 anos, para enfrentar estruturalmente o déficit habitacional, infra estrutura e a urbanização precária. O problema, portanto, não é apenas começar, e sim sustentar, ampliar e priorizar esse investimento como eixo central do desenvolvimento do país.
O que está em jogo não é apenas a forma como construímos nossas cidades, mas o tipo de sociedade que escolhemos ser. Uma sociedade que reconhece todos os seus territórios — ou uma que segue operando a partir da exclusão como regra. Planejar cidades para todos exige começar por quem historicamente foi deixado de fora. Não como correção, não como política compensatória, mas como ponto de partida. Qualquer outro caminho continuará produzindo cidades incompletas — e, no limite, continuará decidindo, ainda que em silêncio, quem pode e quem não pode existir.


